Diário de BordoTwo Feet on the Ground

Costa Vicentina: de Lisboa a Sagres (VI)

No último dia da vossa viagem ao longo da Costa Vicentina e Sudoeste Alentejano, continuamos aa conduzir junto à costa. Saímos de Vila do Bispo com o céu encoberto e começamos o dia a explorar as praias da costa oeste. De grande beleza natural, relativamente desertas, uma a seguir à outra, e ligadas entre si. A Praia do Castelejo, Cordoama e Barriga fazem parte de um trecho de litoral do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, e é para lá que vamos.

A primeira paragem é na Praia do Castelejo. Àquela hora, e com aquelas condições, as (poucas) pessoas que ali encontramos são surfistas em busca da onda perfeita. O mar, de ondulação forte, faz com que a Praia do Castelejo ofereça excelentes condições para a prática de surf e bodyboard. O areal não é extenso, mas as formações rochosas de xisto de cor negra contrastam com o branco da areia e fazem do Castelejo uma escolha segura.

Seguimos pela estrada atribulada que liga as duas praias até à Praia da Cordoama. Do miradouro entre o Castelejo e Cordoama, a paisagem é arrebatadora e nebulosa, o que traz alguma magia ao momento. Banhada por uma ondulação marítima forte e regular, a Cordoama oferece igualmente excelentes condições para a prática de surf e bodyboard. A Praia da Cordoama é a mais longa desta zona costeira, mas quando a maré está vazia une-se com as praias vizinhas: o Barriga, a norte, e o Castelejo, a sul. Debaixo de um nevoeiro intenso conseguimos avistar, no mar, conseguimos avistar não mais que uma mão cheia de surfistas.

Praia do Castelejo

Continuamos até ao Cabo de São Vicente, local que deu nome à Costa Vicentina. Este é o epilogo perfeito para esta descida pela costa até ao extremo sudoeste de Portugal – e da Europa. Este local de rara beleza fixou conhecido como Cabo de São Vicente porque, diz-se, foram ali encontrados os restos mortais de São Vicente, o santo padroeiro de Lisboa. Ergueu-se então uma fortaleza em sua homenagem. Hoje, é possível visitar a Fortaleza de São Vicente e o Farol de São Vicente, que se encontra no seu interior. Apesar da história e da importância do local, o melhor é mesmo a sua envolvência. O litoral escarpado, de paisagem dramática e rochedos acidentados que se precipitam abruptamente para o mar agitado é capaz de compor uma das paisagens mais dramáticas da costa. A par disso, a força do vento, em qualquer altura do ano, é absolutamente vertiginosa.

Entre o Cabo de São Vicente e a Fortaleza de Sagres, fazemos um rápido desvio até ao Forte do Beliche. Ainda que não seja possível visitá-la, porque se encontra encerrada ao público, conseguimos ver parte da edificação e as rochas acidentadas que descem até ao oceano. Ali perto, a Praia do Beliche, abrigada pela ponta de Sagres e o cabo de São Vicente, atrai muitas veraneantes e praticantes de surf e bodyboard. Apesar do vento que se sente no topo, ao descer a longa escadaria até à praia o vento vai acalmando.

A paragem seguinte é a Praia do Tonel, já na Ponta de Sagres. Muito procurada para a prática de surf, é uma praia de areal extenso e uma pequena baía abrigada do vento que se faz sentir na região. De um lado, avista-se o recorte da ponta de Sagres e a Fortaleza de Sagres, no topo. Do outro, o o cabo com a Fortaleza e o Farol de São Vicente.

Pelo caminho, fazemos uma paragem mesmo à beira da Estrada Nacional 268 no Artesanato a Mó. As paredes exteriores do edifício repletas de peças de artesanato chamam a atenção de quem ali passa e não enganam, estamos numa loja de cerâmica tradicional portuguesa. A visita foi curta, pois já era perto da uma da tarde e a senhora que lá estava queria sair para o almoço – vimos, o que calculamos ser, o marido no carro à porta à sua espera – mas ainda deu tempo para uma voltinha pela loja e uma compra rápida.

Por fim, chegamos à Fortaleza de Sagres, um dos pontos mais emblemáticos da história. Estrategicamente erguida na Ponta de Sagres, foi daí que, algures no séculos XV, o Infante D. Henrique deu início a um dos períodos mais prósperos da história de Portugal: a época dos Descobrimentos. Sob o seu comando, a região transformou-se no centro dos descobrimentos e a Fortaleza de Sagres, o principal centro da navegação e expansão marítima portuguesa.

Assim que atravessamos o monumental portão das muralhas da fortaleza, a grandeza do espaço dá-nos uma ideia da importância deste local. E é precisamente essa imensidão, o mais fascinante desta fortaleza no extremo sudoeste da Europa. Quer pela imensidão do espaço, quer pela imensidão do oceano que se estende no horizonte, quer pela imensidão das conquistas ali planeadas. No seu interior, destaca-se a Igreja de Nossa Senhora da Graça, os Baluartes, um conjunto de 6 baterias estrategicamente distribuídas e viradas para o mar, a Torre Cisterna, os vestígios da antiga Vila do Infante, o Padrão de Sagres e, claro, o Farol de Sagres.

O destaque vai ainda para a colossal estrutura circular, de 43 metros de diâmetro, conhecida como Rosa-dos-Ventos. A verdadeira razão da sua construção nunca foi descoberta. Há quem acredite que se tratava de um enorme relógio solar. Há quem acredite que se trata de uma bússola de apoio à navegação, e até quem lhe confira origens mais esotéricas e religiosas. Talvez seja esta sua origem misteriosa que lhe atribui especial encanto, que sobe uns quantos níveis quando combinado com misticismo do local.

A Ponta de Sagres, onde termina Portugal, representa não só um marco histórico para Portugal. É também um local único de biodiversidade do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Devido à sua geografia e condições ambientais impares, o Promontório Vicentino alberga espécies de fauna e flora únicas no mundo. Por se localizar no extremo sudoeste do continente europeu, na Idade Média, acreditava-se que ali seria o fim do mundo (conhecido). Por essa razão, aquele local foi batizado, na época romana, de Promontorium Sacrum – o Promontório Sagrado. Afinal, a paisagem panorâmica sobre o oceano infinito só poderia significar isso mesmo.

Em plena costa sul algarvia seguimos agora à descoberta de um Algarve diferente. Longe das multidões e praias cheias de gente, encontramos um Algarve de praias naturais e quase selvagens, como é o caso da Praia do Zavial , e mais a este, a Praia do Burgau.

O Burgau marca o fim do Parque Natural do Sudeste Alentejano e da nossa viagem pela Costa Vicentina. A pacata vila piscatória, de ruas estreitas que descem até ao mar, e a sua praia paradisíaca são o lugar ideal para terminar esta viagem – 1300 km depois. Depois de um último mergulho no mar, de águas em tons azul turquesa, é hora de voltar ao ponto de partida.

Termina assim a nossa descida pela costa vicentina e sudoeste alentejano. Antes de rumar a casa, fazemos um pequeno desvio na Comporta para uns petiscos de final de tarde no restaurante A Cegonha. Nem a propósito, pelas ruas da pequena e concorrida aldeia da Comporta, as cegonhas fazem parte da paisagem. Nas chaminés, nos postes de iluminação e, claro, na torre da igreja matriz, é possível ver os seus pitorescos ninhos.

De Vila do Bispo a Sagres: Praia do Castelejo – Praia da Cordoama – Cabo de São Vicente – Farol do Cabo de São Vicente – Fortaleza do Beliche – Praia do Beliche – Artesanato a Mó – Praia do Tonel – Fortaleza de Sagres – Praia do Zavial – Praia do Burgau – Comporta


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