Diário de BordoTwo Feet on the Ground

Costa Vicentina: de Lisboa a Sagres (V)

Começamos o dia a vaguear por Odeceixe. Caminhamos pelas suas ruas, agora vazias e subimos ao ponto mais alto desta vila da costa vicentina. É no topo da colina que encontramos um antigo moinho de vento com uma vista panorâmica incrível para a vila, a serra, o rio e o mar. O Moinho de Odeceixe é uma imagem de marca da paisagem local, onde é ainda possível assistir ao processo artesanal de moagem de cereais. Apesar da beleza natural de Odeceixe é hora de seguir viagem.

A cerca de 10 minutos de Odeceixe fazemos uma paragem – obrigatória -para tomar o pequeno-almoço no Pão de Rogil. Esta é uma antiga padaria à beira da estrada da vila com o mesmo nome, e que se encontra a funcionar desde 1965. Noutros tempos, o trigo era moído no moinho do Rogil, a farinha peneirada na padaria, a fermentação era natural e era utilizado forno de lenha. Este processo artesanal garantia que o resultado final era um pão de miolo macio e côdea estaladiça.

Hoje, a Família Claro continua a assegurar que a tradição é mantida e os sabores do pão de antigamente não são esquecidos, com um toque de modernidade de quem não esquece as origens. Tanto na padaria, como na loja-museu, é possível encontrar uma vasta variedade de pão, bolos, bolinhos e bolachas artesanais. De batata doce, alfarroba, centeio ou azeite. Com amêndoa, noz ou figos. Para complementar, os produtos regionais feitos de forma artesanal O difícil é escolher e sair de Rogil sem a barriga – e o saco – cheio.

Não muito longe, encontra-se o Museu da Batata Doce. Este é um restaurante-museu que nasceu da vontade de mostrar o que de melhor se faz com este produto da terra. A batata doce de Aljezur, produzida em Rogil, tem um sabor, textura e cor diferenciadas graças ao clima da região que fazem com que tenha características únicas.

A poucas centenas de metros de Rogil, depois de percorrido um caminho de terra batida, chegamos à Praia de Vale dos Homens. Situada em pleno planalto vicentino, é uma praia ampla, de areal extenso e mar tranquilo. A brisa marítima mistura-se com um cheiro característico no ar (que mais tarde descubro ser a esteva). Para descer até à praia, delimitada por altos rochedos, é preciso descer umas escadas de madeira. A promessa é a de que vai valer a pena.

Continuamos caminho até Aljezur, uma vila da costa vicentina fundada pelos árabes no século X. Aljezur tem já ares de cidade, mas uma grande maioria dos seus edifícios continua a apresentar influências árabes e características da arquitectura rural algarvia. O Castelo de Aljezur, que foi a génese da povoação, ergue-se no alto da colina e é para lá que seguimos. Do antigo castelo restam apenas as muralhas, algumas torres e uma cisterna, enquanto esvoaça, no centro, a bandeira de Portugal. Do topo, a vista panorâmica é soberba e permite ver toda a vila de Aljezur com a Igreja Matriz de Aljezur no meio, perfeitamente alinhada, e a Serra de Monchique, ao longe.

Depois de visitar a serra, seguimos em direção ao mar – não fosse Aljezur a combinação perfeita de ambos. A Praia da Amoreira é a paragem seguinte. Situada na foz da ribeira de Aljezur, que por ali serpenteia e deságua no mar, na praia da Amoreira podemos escolher tomar banho de água doce ou salgada. A baía formada é perfeita para surfar, enquanto o areal extenso e rodeado por dunas convida a banhos de sol e as águas calmas do ribeiro à prática de SUP Paddle ou andar de caiaque. A juntar-se a todo este cenário, um rochedo escuro, a norte, faz lembrar um gigante deitado. A sul, se caminharmos pela encosta verdejante, encontramos pequenas baías por entre as rochas que parecem saídas de um filme. Escusado será dizer que a Amoreira é capaz de ser uma das praias mais surpreendentes da Costa Vicentina.

Depois de um mergulho na ribeira da Praia da Amoreira, seguimos até à Praia de Monte Clérigo. A descida para a praia proporciona uma fabulosa vista panorâmica sobre a linha de costa. Esta é uma praia de areal vasto, que se estende para norte, e formações rochosas, que se erguem a sul. É também uma praia muito procurado por surfistas. Ali ao lado, a pequena povoação de Monte Clérigos constituída por casas de veraneio tem vista privilegiada para o mar.

A próxima paragem é uma das praias de eleição para o surf e bodyboard na Costa Vicentina: a Praia da Arrifana. De areal extenso e estreito, as arribas negras, talhadas em xisto, formam uma pequena baía em forma concha com condições perfeitas para desportos radicais. Ao longe, como quem olha para sul, sobressai na paisagem um ilhéu negro, estreito e escarpado a emergir do mar; trata-se da icónica Pedra da Agulha. A norte, do topo da à Fortaleza da Arrifana, hoje em ruínas, desfruta-se das melhores perspectivas da Costa Vicentina.

Praia da Arrifana

Seguimos pela N120 em direção a Sagres, fazemos um desvio à esquerda para a N268 e uns quilómetros depois viramos novamente à esquerda. Depois de 15 minutos de caminho de terra batida, que nos faz duvidar se estamos a ir pelo sítio certo, começamos a avistar a Praia de Vale Figueiras. Ainda pouco frequentada – e ainda bem -, a bonita praia tem um extenso areal de areia fina e um mar de água , e ondas, a envolvência fazem dela uma das mais praias mais bonitas da região. É uma praia muito procurada por surfistas, e ideal para amantes da natureza. Aqui respira-se natureza no seu estado mais puro, um misto de maresia com o aroma característico da vegetação envolvente.

O resto da tarde é passado na Praia da Bordeira, também conhecida por Praia da Carrapateira. Ao fundo, uma linha azul no horizonte dá-nos uma ideia de que ali será o mar. A Praia da Bordeira, enorme e única, prolonga-se por 3 km de um areal de formas harmoniosas esculpidas pelo mar, dunas com vegetação baixa e uma ribeira que serpenteia até desaguar no mar. A Ribeira da Bordeira, que nasce na serra de Monchique, forma uma lagoa natural de águas tépidas e faz com que a Bordeira seja um 2 em 1: uma praia de água doce, outra de água salgada. Dois cães correm livremente até às águas doces da ribeira. É a prova de que a Carrapateira faz a delícia de todos – veraneantes, surfistas, pescadores, caminhantes, meros curiosos e até animais. Assim que pomos os pés na areia não conseguimos ter real noção da dimensão desta praia.

O dia estava quase a terminar e o tempo começou a mudar, por isso subimos até ao pontal da Carrapateira, onde a vista do passadiço é absolutamente incrível.

Seguimos até à Aldeia da Pedralva para jantar no Sítio da Pedralva. Situada no concelho de Vila do Bispo, esta aldeia no meio do campo estava praticamente abandonada até há poucos anos. Foi totalmente recuperada em 2010, e transformada em turismo de aldeia. Conta agora com várias casinhas caiadas de branco, ruas empedradas e áreas comuns, que até incluem um antigo posto de correios. Além do Sítio da Pedralva, um restaurante mais típico, tem também a famosa Pizza Pazza, uma pizzaria de massa fina e estaladiça. Infelizmente, estava encerrada naquele dia. A Pedralva é uma aldeia muito pitoresca, que mantêm vivo o verdadeiro espirito e tradição das antigas aldeias portuguesas. A simplicidade e autenticidade preservadas no tempo da Aldeia da Pedralva.

Nova tentativa de ver o pôr-do-sol, seguimos até à Praia do Amado, mas a tentativa saí furada pois o céu tinha, entretanto, ficado totalmente encoberto. Normalmente cheia de gente durante o verão, a praia do Amado é também um autêntico paraíso para praticantes de surf e de bodyboard. Por essa razão, os únicos que ainda se encontravam na praia, e no mar, eram uns quantos surfistas – e um pescador de linha – enquanto a noite caía. Passear nos seus passadiços, que nos levam a diferentes miradouros sobre a praia, é o programa ideal para o final do dia que já vai longo.

Terminamos o dia em Vila do Bispo, já muito perto do nosso destino final. Por fim, o nosso alojamento da última noite merece especial destaque. “Mais do que um simples Bed and Breakfast, o Pure Fonte Velha é uma das melhores experiências de alojamento da região”. É assim que se descreve, e não podia concordar mais. O design contemporâneo e minimalista do espaço, em que cada detalhe foi pensado ao pormenor, e a simpatia e hospitalidade da dona, que tão bem nos recebeu, fazem com que o Pure Fonte Velha B&B seja o melhor alojamento de toda a viagem pela costa vicentina.

De Odeceixe a Vila do Bispo: Odeceixe – Rogil (Pão de Rogil) – Praia do Vale dos Homens – Aljezur – Castelo de Aljezur – Praia da Amoreira – Praia de Monte Clérigo – Praia da Arrifana – Praia de Vale Figueira – Praia da Bordeira – Aldeia da Pedralva – Praia do Amado – Vila do Bispo


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