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Na rota do chá dos Açores

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A ilha de São Miguel abriga as únicas plantações de chá para fins industriais da Europa. É na região de Ribeira Grande, na costa norte da ilha, que situam as plantações de chá dos Açores: a Fábrica de Chá de Porto Formoso e a Gorreana. O clima húmido e temperado e o rico solo vulcânico da ilha tornam as condições propicias à plantação de chá.

As primeiras sementes foram trazidas do Brasil na segunda metade do século XVIII. Por um longo período, a planta do chá foi usado apenas como planta ornamental. Em 1878, por iniciativa da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, chegaram a São Miguel dois chineses para ensinar aos locais as técnicas de transformação industrial do chá. Chegou a haver 6 fábricas de chá na costa norte da ilha de São Miguel no final do século XX, que acabaram por fechar. Hoje, apenas as fábricas de Porto Formoso e da Gorreana continuam a funcionar. Além destas duas fábricas, restam também ainda algumas plantações familiares que são utilizadas para consumo próprio.

A planta usada para a produção de chá verde e chá preto nos Açores é a Camellia sinensis. É a partir desta planta que são obtidos os chás Porto Formoso e Gorreana. Em São Miguel são produzidas as variedades de chá preto e chá verde. O processo de cultivo, apanha e transformação do chá preserva ainda muitos dos métodos artesanais antigamente utilizados. Após a apanha, feita entre Abril e Setembro, as folhas são levadas para as fábricas e transformadas através de processos naturais. O processo de transformação ortodoxos do chá preto passa pelo murchamento, enrolamento e fermentação das folhas. Após a secagem, é feita a seleção consoante os tipos e tamanhos de chá, armazenamento e embalamento. O chá verde difere ligeiramente no processo de transformação. Depois da colheita, as folhas são sujeitas a um processo que consiste na aplicação de vapor de água, que leva à inativação de enzimas. Este processo impede a fermentação, ou a oxidação, tornando assim o chá verde um forte oxidante. As folhas são depois enroladas, secas e enroladas novamente, tornando-se esverdeadas.

No que toca aos tipos de chá – preto ou verde – produzidos nos Açores, há também diferentes variedades. Os diferentes tipos de chá preto são o Orange Pekoe, Pekoe e Broken Leaf – que variam de acordo com o tamanho e tipo de folha. O Orange Pekoe é feito a partir da primeira folha do rebento, muito enrolado. O Pekoe é originário da segunda folha e tem um paladar e aroma menos acentuado. E o Broken Leak é feito a partir da terceira folha e de folhas partidas, sendo o menos aromático e mais suave de todos. No chá verde, existe 2 variedades de chá produzidas: a tradicional, que utiliza as três primeiras folhas; e o mais aromático, que utiliza apenas a primeira folha.

Uma atividade muito é visitar as duas únicas plantações de chá da Europa e as suas respetivas fábricas. Há também um trilho pedestre (PRC28SMI: Chá Gorreana) que permite circular ao longo das plantações de chá da Gorreana.

Plantações de Chá de Porto Formoso

A Fábrica de Chá Porto Formoso funcionou entre os anos 20 e 80, mas acabou por fechar. Reabriu em 2001 e é atualmente Património Industrial da Região. É uma fábrica pequena, com apenas 5 hectares de plantação. Alia a componente de produção de chá, à preservação das memórias do fabrico do chá desde os seus primórdios nas ilhas açorianas no final do século XIX. É um espaço museológico, no qual são proporcionadas visitas guiadas a qualquer hora do dia com direito a uma prova de chá no final. A fábrica organiza também, anualmente, a recriação da colheita tradicional do chá. Esta iniciativa pretende preservar os costumes e as vivências da época em que o chá tinha grande importância económica e social nesta região dos Açores.

A Fábrica de Chá Porto Formoso produz as 3 variedades de chá preto produzido nos Açores (Orange Pekoe, Pekoe, Broken Leaf) e o Azores Home Blended. Este chá é inspirado no antigo fabrico de chá caseiro e é o primeiro chá do ano, que contém todas as folhas do rebento, e possui um sabor genuíno.

Plantação de Chá Gorreana

A Fábrica de Chá Gorreana é a mais antiga fábrica de chá da Europa e os seus chás são reconhecidos em todo o mundo. A fábrica é parte de um negócio familiar que já vai na 6ª geração. Está em funcionamento desde 1883, quando Ermelinda Gago da Câmara, vendeu a primeira produção de chá. A plantação ali existente é a mais antiga da Europa e conta com mais de 40 hectáres. Esteve para fechar, em 1975, mas, desde então, não parou de crescer nas quantidades produzidas e exportadas, na área de cultivo e na procura. Em 2011, a Gorreana ficou com a fábrica e plantações Canto, outrora a mais emblemática fábrica açoriana. Sob condição de relançar a marca “Canto” no mercado, como homenagem ao seu fundador José do Canto. A Gorreana, além das plantações e da fábrica, funciona também como museu. É possível fazer visitas guiadas e caminhar junto aos diferentes tipos de maquinaria do processo de transformação do chá. Há também a Casa de Chá, o local idílico para degustar uma chávena de chá ali produzido. E ainda loja e o trilho pedestre de cerca de 3 km pelas plantações da Gorreana.

Os processos usados na Gorreana mantêm-se praticamente inalterados desde a sua fundação, e são essencialmente feitos à mão. As máquinas Marshall, datadas de 1840, estão ainda em funcionamento. Os diferentes processos de produção da Gorreana determinam os 3 tipos de chá produzidos na Gorrena: preto, verde e Oolong. Dentro da categoria do chá preto, a Gorreana produz as variedades Moinha, Orange Pekoe, Pekoe, Orange Pekoe Ponta Branca, Broken Leaf. Dentro do chá verde, as variedades produzidas são a Hysson, Encosta de Bruma e Pérola. O Oloong é uma mistura entre o chá verde e o chá preto. Além dos chás Gorreana, são produzimos também os chás Canto. Um dos principais é o chá verde com jasmim, classificado como produto nacional. Todos os chás produzidos pela Gorreana são 100% biológicos pois estão livres de químicos. O clima açoriano ajuda a manter as pragas afastadas.

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