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Uma chávena de chá de Ceilão, karunakara

Pronuncia-se karu-nah-kara, em cingales. Em portguês, “por favor”. Uma chávena de chá de Ceilão, por favor. Estamos no Sri Lanka, o país do chá, no oceano Índico. O antigo Ceilão, nome com que os ingleses baptizaram a ilha em 1796, tem tudo um paraíso deve ter – o paraíso da Tropabana. Um país ainda pouco explorado, onde os templos milenares, as praias paradisíacas e as cidades coloniais escondem a natureza exuberante desta “ilha resplandecente”, e se reencontram, numa harmonia perfeita. A base da economia cingalesa é a agricultura, e o chá a força motriz do país. Afinal, estamos a falar de um dos maiores produtores de chá do mundo. O chá aqui produzido é mundialmente conhecido como Chá de Ceilão.

A viagem de hoje leva-nos ao coração do Sri Lanka. Depois da imperdível viagem de comboio até Nuwara Eliya, chegamos ao Hill Country, onde se concentram a maior parte de plantações de chá da ilha. É uma região montanhosa no centro do Sri Lanka, onde o clima é mais fresco e húmido, e propício ao cultivo da planta do chá. Nas terras altas cingalesas, a mais de 1000 metros acima do nível das águas do mar, encontram-se as plantações do melhor chá do mundo. As condições climatéricas do Sri Lanka permitem que as plantações de chá produzam chá durante todo o ano. Da mesma forma, juntamente com as diferentes altitudes e solos, influenciam o sabor, o aroma e a coloração do chá – e o tornam tão único no mundo. Nuwara Eliya é também conhecida por Little England, pois a cidade mantêm ainda as características muito semelhantes de uma antiga cidade inglesa, com casas ao estilo inglês.

O Sri Lanka é, atualmente, o quarto maior produtor de chá do mundo. Nas últimas décadas, foram reunidos esforços no sentido de transformar esta indústria com mais de 150 anos de história numa força verdadeiramente global. Mas nem sempre foi assim. Recuando até ao ano de 1824, quando os ingleses trouxeram da China para o antigo Ceilão a primeira planta de chá. Foi plantada no Royal Botanical Garden, em Kandy, e é considerada a primeira plantação de chá do Sri Lanka para fins não comerciais. Em meados do século XIX, uma praga de fungos arrasou as plantações de café do país, e foi ai que a produção de chá no Sri Lanka ganhou força.

Apenas a partir dessa altura o país se dedicou ao chá e se estabeleceu, desde logo, como uma importante referência na indústria. O responsável foi um escocês de nome James Taylor que, em 1867, iniciou a plantação de Loolecondera Estate, em Kandy. Em 1873, o primeiro carregamento de chá chegou a Londres e descobriu-se, assim, que a alquimia da terra, o sol e a chuva daquela ilha distante tornavam esta bebida única. O feito não passou despercebido e o sucesso foi imediato. O consumo de chá em Inglaterra intensificou-se rapidamente e o chá tornou-se a bebida de eleição dos ingleses. Nas décadas seguintes, foram muitos os que foram explorando o potencial que o chá do Sri Lanka tinha para oferecer. Um pouco por toda a ilha foram surgindo inúmeras plantações e fábricas de chá, especialmente na região entre Kandy e Ella. Em 1890, Thomas Lipton – o fundador da Lipton Tea – comprou as suas primeiras plantações de chá no Sri Lanka e deu início a uma revolução na indústria a nível mundial. Depois do final da 2ª Guerra Mundial, muitos dos colonos britânicos começaram a regressar à sua terra-natal, e as propriedades de chá passaram a pertencer aos habitantes locais. Muitos foram os que continuaram o sucesso, mas outros tantos acabaram por deixá-las ao abandono.

Muitas coisas mudaram desde 1867. Ceilão é agora Sri Lanka. Contudo, a arte de produzir o verdadeiro Chá de Ceilão mantém-se praticamente inalterada. Os métodos de produção, cultivo e apanha são ainda muito tradicionais. Nem os métodos parecem ter mudado, nem as condições de trabalho se tornaram muito mais dignas. As mulheres cingalesas, vestidas com os seus trajes coloridos, preenchem as plantações de chá e colhem, uma a uma, as singelas folhas de chá. A rapidez e delicadeza com que o fazem, indiciam os anos de prática que levaram a adquirir tal destreza. Isso, e necessidade de ultrapassar a quota mínima de sete quilos diários, aos quais corresponde um salário médio de sessenta rupias. Ao final do dia, regressam a base e avançam para as balanças, onde o capataz observa, pesa e anota os detalhes da apanha. Faça chuva ou faça sol, o trabalho repete-se. Diariamente. É assim durante 8 horas por dia, todos os dias, durante três épocas por ano.

Existem inúmeros tipos de chás, de vários sabores e aromas. O chá do Ceilão está dividido em 3 grupos baseados na geografia da terra em que é cultivado: Up Country, o Mid Country e o Low Country; e em 7 regiões agro-climáticas do Sri Lanka – Nuwara Eliya, Uva, Uda Pussellawa, Dimbula, Kandy, Ruhuna e Sabaragamuwa. Em termos de variedades, há o chá preto, o mais commumente apreciado, o chá verde, cuja procura é cada vez maior, e o chá branco – de onde vêm as ainda mais especiais silver tips e golden tips -, que é o mais único de todos. Dentro do chá preto, a sua designação varia de acordo com o tamanho e tipo de folhas de que é feito. Destacam-se o Orange Pekoe, o Pekoe e o Broken Leaf. O broken leaf é um chá de uma folha mais pequena, usualmente a terceira folha de planta, ou das folhas quebradas. O chá verde produzido no Sri Lanka segue as milenares tradições chinesas, mas é peculiar na sua cor, forma e sabor. Já o chá branco, é uma espécie de néctar dos deuses. Pela sua forma peculiar de ser produzido e colhido, é um dos chás mais caros e apetecíveis em todo o mundo.

Bluefield Tea Factory

Nuwara Eliya tem um grande número de plantações, fábricas e casas de chá. Escolhemos visitar uma das fábricas mais conhecidas: a Bluefield Tea Factory.  A Bluefield Tea Factory é hoje uma fábrica que despenha um papel importante na exportação de chá de Ceilão para todo o mundo. Tal como outras, foi uma das fábricas que não foram capazes de continuar o sucesso depois do abandono dos proprietários britânicos. Como resultado, os (atuais) proprietários conseguiram adquirir a propriedade a custos muito baixos e trazê-la de volta à prosperidade. A nova gerência transformou Bluefield numa das fábricas mais populares e importante do Sri Lanka.

Começamos a visita pela fábrica, onde podemos ver a maquinaria antiga ainda utilizada, e os trabalhadores a terminarem o seu dia de trabalho. Foi-nos explicado todo o processo de cultivo da planta do chá, assim como os diferentes tipos de chá, e as diferenças entre eles. Desde o processo de seleção das folhas, a secagem e o enrolamento das mesmas para cada chá. Lá fora, no meio da plantação, uma trabalhadora exemplifica-nos – a troco de algumas rupias – o processo de apanha das diferentes folhas, e o que se segue antes de chegar à fábrica. Escolhem apenas duas folhas e colocadas em sacos em grandes quantidades, que são então murchas, enroladas e fermentadas – em alguns casos -, e depois secas e peneiradas. Após a peneira, as folhas são separadas em diferentes graus. As folhas maiores são as chamadas de Orange Pekoe, seguidas de vários tipos diferentes, até o grau de poeira, a Broken leaf. Cada grau tem uma cor e intensidade diferentes. Em média, cada 4 kg de folhas equivalem a apenas 1 kg de chá. No final, fomos convidados a visitar a sala de chá e a provar os diferentes tipos de chá. E, claro que trouxemos para casa uns sacos e pequenos cestos de verga de todas as variedades de chá – preto, verde e branco.

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