Memórias de Viagem

O genocídio do Camboja

Para um país tão vibrante e cheio de vida, o Camboja (não) esconde o seu passado sombrio. Para compreender melhor o que é hoje o Camboja, é importante recuar no tempo e ficar a conhecer melhor o seu passado (recente) e a história do genocídio que aconteceu no Camboja há poucas décadas atrás .

Recuamos a 17 de abril de 1975 – a data que marca o início da revolução no Camboja. Quando o Khmer Vermelho, ou Khmer Rouge, derrubou o então atual regime sob liderança de Pol Plot, o seu primeiro ato foi aniquilar todo e qualquer um que fosse considerado um “inimigo de Estado”.

A utopia do Khmer Vermelho e do seu fanático líder Pol Plot ambicionava para o Camboja uma sociedade comunista puramente agrária. Pol Plot acreditava que todos os intelectuais eram uma ameaça ao comunismo e, por isso, tinham de ser eliminados. Isto incluía não apenas membros e apoiantes do antigo regime, mas também jornalistas, médicos, professores ou empresários. Ou simplesmente pessoas que usavam óculos – tão simples e fanático quanto isto. Rapidamente as cidades foram evacuadas e a capital, Phnom Pehn, ficou deserta em poucos dias. Famílias inteiras foram separadas e enviadas para campos de trabalho para plantar e cultivar arroz. Homens, mulheres e crianças, independemente da idade ou estado de saúde trabalhavam no campo dia e noite. Pol Plot acreditava também que iria duplicar a produção de arroz do dia para a noite, e tornar o Camboja autosuficiente – algo que jamais aconteceu.

Entre 1975 e 1979, cerca de 3 milhões de cambojanos perderam a vida sob o regime de Pol Plot. Um terço da população do Camboja na altura foi aniquilada pelas mãos do seu próprio povo. Motivada pela fome, doenças, trabalho forçado e brutais execuções. A tirania imposta por Pol Pot terminou em 1979, quando o regime do Khmer Vermelho foi derrubado após uma invasão do exército vietnamita. Pol Pot fugiu fugiu e abrigou-se em uma região remota próxima da Tailândia, onde viveu isolado na floresta junto da sua guerrilha comunista até aos últimos dias da sua vida. Em 1998, o líder máximo do Khmer Vermelho morreu após (supostamente) sofrer um ataque cardíaco.

Em 2018, o tribunal especial criado pela ONU para julgar os crimes cometidos no Camboja condenou os principais responsáveis ainda vivos. Quase 40 anos depois do fim do regime de Pol Pot, foi declarada pela primeira vez que o que aconteceu durante o regime do Khmer Vermelho foi um genocídio, segundo a definição da lei internacional. Até então, era frequente encontrarem-se referências ao genocídio no Camboja, mas nunca tinha ficado definido aos olhos da lei que, tecnicamente, os crimes brutais cometidos constituiam um genocídio.

Visitar Tuol Sleng e Choeung Ek

Em Phnom Penh, os Campos de Extermínio de Choeung Ek e a antiga Prisão Tuol Sleng são dois locais a visitar para quem ficar a saber melhor sobre o genocídio que aconteceu no Camboja há 40 anos atrás.

Prisão Tuol Sleng (S21)

Era uma escola secundária como tantas outras, localizada na baixa de Phnom Penh. Durante o regime do Khmer Vermelhono tornou-se no mais notório centro de detenção interrogação e a mais famosa prisão de Pol Plot. Era para aqui que os prisioneiros eram enviados para serem interrogados, torturados e aprisionados em selas minúsculas. Forçados a admitirem a culpa pelo que eram acusados, eram depois enviados para Choeung Ek. Das mais de 17.000 pessoas que por ali passaram, apenas 7 sobreviveram. À medida que se caminha pela prisão e se entra nas antigas selas, é possível ver fotografias que retratam o que ali se passou. Cada prisioneiro que passou por Toul Sleng foi fotografado e catalogado. 

Campos de Extermínio de Choeung Ek

Localizado a cerca de 45 minutos a norte de Phnom Penh fica o antigo Campo de Extermínio do Khmer Vermelho -hoje, Choeung Ek Genocidal Center. Foi aqui, nos Killing Fields, que mais de 17.000 pessoas – homens, mulheres e crianças – foram transportadas para serem assassinadas, vindas da Prisão Tuol Sleng. Choeung Ek é apenas um dois cerca de 300 campos de extermínios existentes no Camboja. À chegada recebemos um audio tour que nos guia em toda a visita e nos relata a história do que aconteceu naquele espaço. Choeung Ek abriga os restos mortais de 9.000 pessoas assassinadas e enterradas em valas comuns durante o regime do Khmer Vermelho. Num tributo solene a todos os que ali perderam a vida encontra-se no meio do recinto uma enorme estupa memorial construída em 1988. No seu interior, os crânios e ossos marcados de muitos dos que ali perderam a vida.

➳ LER: Choeung Ek, os campos de extermínio do Khmer Vermelho

Depois de visitar o Prisão Tuol Sleng (S21) e os Campos de Extermínio de Choeung Ek vais provavelmente sentir-te triste, angústiado e até revoltado. Contudo, é uma experiência essencial para ganhar um verdadeiro impacto que o regime do Khmer Vermelho teve no país, e que o moldou no Camboja que estás agora a conhecer. A visita a ambos os locais pode ser feita calmamente numa manhã. Tira o resto do dia e aproveita para explorar a capital Phnom Penh, as e o simpático e genoroso povo cambojano.

➳ LER: Phnom Penh, a sorridente capital do Camboja

Se quiseres ficar a conhcer mais sobre o assunto aconselho a ver os filmes The Killing Fields e First They Killed My Father. Este último, realizado por Angelina Jolie, é uma adaptação do livro com o mesmo nome, escrito por Loung Ung com base na sua própria experiência pessoal vivida durante o regime do Khmer Vermelho.


Apesar dos audio guides que são dados à entrada de cada um destes locais serem muito úteis, podes sempre optar por ir numa excursão com um guia local para ter uma perspectiva diferente dos eventos. Em baixo, encontras algumas atividades guiadas altamente recomendadas para visitar ambos os locais.


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