Crónicas em Viagem

Dia 1 a 8 | São Miguel, à descoberta da ilha verde

Não há dúvidas que os Açores são um dos locais mais incríveis de Portugal e, com um casamento em São Miguel, aproveitei para estender a duração da estadia na ilha. Durante 8 dias explorámos o que de melhor São Miguel tem para oferecer, naquela que foi a minha primeira viagem aos Açores. O bilhete de avião, comprado com bastante antecedência, ficou relativamente barato – 62€, ida e volta pela TAP. Para termos maior liberdade e para reduzir os custos, optámos por ficar num Airbnb e alugar um carro, o que acaba por ser a forma mais prática, conveniente e económica para uma viagem a São Miguel.

O voo de Lisboa saiu atrasado (como já é habitual no aeroporto de Lisboa) e como era o último voo do dia para Ponta Delgada (às 22:35), acabámos por chegar já de madrugada. O nosso Airbnb ficava em Arrifes, a 5 minutos do aeroporto, pelo que a chegada apesar de tardia acabou por ser tranquila.

Dia 1 | Lagoa do Canário, Miradouro da Grota do Inferno e vistas para Lagoa das Sete Cidades

No primeiro dia aproveitámos a manhã para fazer algumas compras para a casa e a seguir ao almoço fomos explorar a zona da Lagoa das Sete Cidades. A primeira paragem foi no aqueduto do Carvão, uma enorme construção de pedra repleta de musgo, do verde ao laranja, que lhe dá um aspecto peculiar.

Seguimos até à Lagoa do Canário, que fica no Parque Florestal da Mata do Canário. Deixámos o carro no parque em frente à entrada da mata e seguimos a pé até às margens da Lagoa. Continuando o caminho pelo parque, subimos por entre a vegetação e chegamos o Miradouro da Grota do Inferno. À nossa frente uma paisagem inacreditável. A vista panorâmica dá para ver a Lagoa das Sete Cidades, a Lagoa Rasa, a Lagoa de Santiago, a freguesia das Sete Cidades e a Serra Devassa. Do topo dos mais de 700 metros de altitude é possível ter uma vista incrível do mar, das montanhas e das lagoas, no meio de uma vegetação natural que torna o cenário épico.

Como o tempo começou a piorar, voltámos ao carro e seguimos no sentido contrário, de regresso a casa, parando em alguns miradouros pelo caminho.  O jantar foi no restaurante Mariserra, em São Roque, a pouco minutos do centro de Ponta Delgada. Por recomendação, escolhemos os Filetes de Polvo com arroz do mesmo (delicioso!) e, para entrada, uma “pequena” sapateira com mais de 1,5 kg. 

Depois de jantar, fomos passear pelo centro de Ponta Delgada. As Portas da Cidade, consideradas um cartão de visita da cidade, são um dos monumentos mais emblemáticos de Ponta Delgada. Em pleno centro, este marco arquitetónico é composto por 3 grandes arcos que dizem dar as boas-vindas a quem chega a São Miguel.

Dias 2 e 3 | Casamento, Caloura e Praia de Água d’Alto

O nosso segundo dia na ilha foi dedicado ao casamento. Ficámos a conhecer a Igreja da Nossa Senhora dos Anjos, na Fajã de Baixo, e a região da Caloura. Fica fácil de perceber o porquê de um casamento em São Miguel 🙂

No dia a seguir, regressámos depois de almoço à zona da Caloura, onde visitámos o Miradouro do Pisão, o Miradouro da Rua do Botelho, e explorámos aquela zona. A Caloura, “zona onde se acumula calor”, é a região com o metro quadrado mais caro de São Miguel. Como era domingo e era tarde, não conseguimos arranjar lugar para estacionar e ir à praia na Caloura, por isso passámos o resto da tarde numa outra praia ali perto: a Praia de Água d’Alto.

Dia 4 | Povoação, Faial da Terra, Sanguinho e Nordeste

No quarto dia em São Miguel, seguimos pela parte sul da ilha até Povoação, uma pequena vila na costa. A descoberta dos Açores está envolta em controvérsias, mas existe uma tese que defende que terá sido ali, na antiga Povoação Velha, que os descobridores aportaram pela primeira vez. Por essa razão, existem vários monumentos que marcam esse feito, como o Padrão dos Descobrimentos ou as Portas do Povoamento.

Depois de um almoço rápido, continuámos caminho até ao Faial da Terra para fazer o trilho do Sanguinho (PRC9SMI: Faial da Terra – Salto do Prego). Esta região é especialmente conhecida pela sua riqueza natural e por este trilho que nos leva até à aldeia fantasma com o mesmo nome.

O trilho é feito numa rota circular de 4,5km e tem início junto à paragem dos autocarros no Faial da Terra. É preciso subir a estrada de asfalto até uma pequena bifurcação que leva até um caminho de terra. Depois é só desbravar caminho pela densa vegetação. Ao longo do percurso, o caminho a seguir está sinalizado. Quando chegámos a um ponto com duas direções – para esquerda, o Sanguinho; e para a direita, o Salto do Prego,  seguimos na direção do Salto do Prego. Continuamos a subir até à Cascata do Salto do Prego. Primeiro até ao topo da cascata e depois até à sua base, onde é possível mergulhar nas suas águas (frias). De regresso ao trilho, seguimos até à aldeia do Sanguinho.

O Sanguinho é uma pequena aldeia rural praticamente desabitada, já que a sua população abandonou o local no início dos anos 70 pela ausência de condições de conforto e segurança, e pelas claras dificuldades de acesso. Apesar da aldeia continuar vazia, é possível ver que algumas das casas já se encontram reabilitadas para turismo rural. Não deixa de ser um local muito peculiar, onde impera o silêncio e a natureza. Literalmente no “meio do nada”.

Durante a descida serpenteante somos contemplados com uma vista panorâmica para o Faial da Terra, que nos faz perceber o porque de ser conhecido como o “Presépio da Ilha”. O nome vem da forma pitoresca como esta vila se localiza no vale de duas montanhas e cuja ribeira, que passa no meio, divide a localidade para desaguar no oceano.

À semelhança do resto do trilho, é preciso ter muito cuidado com o piso extremamente escorregadio, particularmente quando está a chover (que foi o caso).  A caminhada durou entre 2 a 3 horas, contando com o tempo que estivemos na cascata, e é uma caminhada relativamente fácil de se fazer e que não exige grande preparação física. Apenas cuidado com o piso escorregadio, e subidas e descidas acentuadas por entre a vegetação.

Como continuava a chover, demos uma pequena volta de carro pelo Faial da Terra e seguimos em direção ao Nordeste.

Já no lado nordeste da ilha, como o nome indica, fizemos paragens rápidas no Miradouro da Ponta da Madruga, no Miradouro da Ponta do Sossego e no Farol do Arnel. Como houve mudança de estação entretanto, e não parava de chover, foi uma visita curta. De qualquer um destes pontos é fácil perceber que a região nordeste é das mais acidentadas da ilha, o que faz com que as paisagens sejam particularmente interessantes.

Dia 5 | Lagoa das Sete Cidades, Mosteiros e Ferraria

O dia seguinte foi dedicado a explorar as redondezas da mais famosa lagoa de São Miguel. Saímos de manhã em direção ao Miradouro da Vista do Rei, que tem uma das melhoras vistas para a Lagoa das Sete Cidades. É também aqui que se situa o misterioso hotel abandonado Monte Palace. Estacionámos o carro uns metros acima do miradouro e descemos novamente a pé para espreitar o que resta deste antigo e luxuoso hotel.

O Monte Palace abriu no final dos anos 80 com a ambição de ser o hotel mais luxuoso dos Açores. Apesar de ter uma das mais incríveis paisagens de São Miguel, o hotel acabou por fechar pouco mais de um ano depois devido à falta de hóspedes. Manteve-se esquecido (mas intacto) até em 2011, altura que foi deixado ao abandono. Foi então que começaram os assaltos. No seu interior, o que encontramos são ruínas e destroços que apenas guardam memórias do luxo que ali existiu. Após algum tempo a explorar o interior do hotel e os seus antigos quartos, com uma vista inacreditável para a Lagoa das Sete Cidades, descobrimos um acesso que nos leva ao terraço. Na parede da entrada lê-se “Welcome to the best view“, e a vista é, sem dúvida, uma das mais incríveis que vimos em toda a viagem. O verde natural da paisagem envolvente contrasta com o cinzento do cimento do hotel em ruínas, com a Lagoa ao fundo, de um dos lados, e o imenso oceano azul, do outro.

Por volta da hora de almoço, descemos até à freguesia das Setes Cidades, a pequena povoação situada no interior da caldeira do vulcão das Sete Cidades, na margem oriental da lagoa do mesmo nome. Declarada como uma das 7 Maravilhas Naturais de Portugal, na categoria de Zonas Aquáticas Não Marinhas, a lagoa tem uma profundidade máxima de 33 metros e mais de 4 km de comprimento. Está rodeada de paisagens verdes naturais, campos de cultivo e encostas escarpadas sem igual.

A Lagoa das Sete Cidades é composta por duas lagoas – a Lagoa Verde e a Lagoa Azul – ligadas entre si por uma pequena passagem, e uma ponte as une por terra. Apesar da lagoa ser apenas uma, ficou assim conhecida pela diferente coloração das águas e pela lenda da Princesa dos Olhos Azuis. Diz a lenda que naquela região existia um reino, onde habitava uma jovem princesa de olhos azuis que, num dos seus passeios pelos prados, conheceu um pastor de olhos verdes. Com o passar dos dias, os jovens foram-se apaixonando. Porém, quando o Rei tomou conhecimento deste amor, proibiu a princesa de se voltar a encontrar com o pastor. No seu último encontro, enquanto se despediam, choravam o seu triste destino. De tal forma que, dos olhos da princesa se formou a Lagoa Azul, e dos olhos do pastor se formou a Lagoa Verde. Assim, apesar de separados, as suas sentidas lágrimas ficaram para sempre ligadas na Lagoa das Sete Cidades. A explicação mais científica diz que a culpa é das algas, da ecologia, e dos reflexos do sol em cada lagoa. Qualquer que seja a razão, o facto é que este é um dos locais mais inacreditáveis do mundo.

Pelo caminho, fomos parando em diferentes miradouros (o que é uma óptima de ficar a conhecer a ilha), como o Miradouro do Cerrado das Freiras e o Miradouro da Lagoa de Santiago. Para uma refeição rápida almoçámos no Green Love Restaurant – apesar de não ser péssimo, apenas cumpre o propósito e é caro para a experiência, por isso a dica é levar comida na mochila ou almoçar noutro sítio.

Depois de almoço, continuámos o passeio a pé pela povoação das Sete Cidades, passeando pelas margens do lado da Lagoa Verde e visitando o centro, onde se localiza a Igreja de São Nicolau. Passámos novamente pela ponte que separa a lagoa em duas e estacionámos junto à Lagoa Azul. Há diferentes atividades que se podem fazer no local, desde canoagem a percursos pedestres, passando por stand-up paddle, observação de aves ou passeios todo o terreno. Nós fizemos parte do percurso pedestre pela margem da lagoa.

Da parte da tarde, seguimos em direção à costa oeste da ilha de São Miguel, fazendo uma paragem no Miradouro da Ponta do Escalvado, que oferece uma vista panorâmica sobre o oceano. Do lado esquerdo, a região da Ferraria; do lado direito, os famosos ilhéus dos Mosteiros. Estas quatro formações rochosas singulares parecem frades ataviados nos seus hábitos e daí ter surgido o nome “Mosteiros”. Seguimos até à Praia dos Mosteiros, uma praia de areia escura, onde passámos o resto da tarde. Na água, apenas se viam alguns surfistas a desbravar o mar agitado, com os pitorescos ilhéus dos Mosteiros a embelezar a paisagem.

Para finalizar o dia, seguimos até à Ponta da Ferraria para um pôr do sol incrível, e um banho na Piscina Natural da Ferraria. É uma piscina natural no mar, com água aquecida pelas nascentes de águas termais de origem vulcânica que ali existem. De regresso ao carro, subimos o penhasco e fomos em direção ao Farol da Ponta da Ferraria, ainda a tempo de ver o sol a desaparecer no horizonte.

Já de noite, regressamos a casa para nos despacharmos para ir jantar mais umas especialidades locais. Desta vez, experimentámos as famosas lapas grelhadas dos Açores e uma cataplana de tamboril no Cais 20, um dos pontos de paragem obrigatórios para experimentar peixe e marisco fresco do mar dos Açores.

Dia 6 | Lagoa do Fogo, Caldeira Velha e Ribeira Grande

Que o tempo é incerto nos Açores, toda a gente sabe. Andámos a adiar a nossa visita à Lagoa do Fogo porque estava sempre nevoeiro cada vez que víamos as condições nas webcams do Spot Azores. Como já não tínhamos muito dias na ilha, decidimos arriscar.

A Lagoa do Fogo é a segunda maior lagoa de São Miguel, e a que se situa num ponto mais alto. É classificada como Reserva Natural devido ao seu enorme valor natural e paisagístico. À medida que nos aproximávamos, o sol ia desaparecendo e o tempo ia piorando. Quando chegámos junto ao Miradouro do Pico da Barrosa, ainda se conseguia ver a lagoa. Mas é então que, 2 ou 3 minutos depois, a Lagoa do Fogo desaparece, literalmente. Apenas uma enorme nuvem de nevoeiro à nossa frente. Continuámos a subir, a pé, até ao Pico da Barrosa, a 947 metros de altitude. Além de uma vista panorâmica para ambos os lados da ilha (quanto o tempo assim o permite), é também possível encontrar ali as grandes antenas da estação emissora de rádio da Barrosa.

Continuámos caminho pela cratera do vulcão, parando nos diversos miradouros que existem no caminho até à Caldeira Velha, como Miradouro da Lagoa do Fogo e o Miradouro da Belavista. A partir deste ponto é possível descer até às margens da Lagoa, mas como o tempo não estava muito bom, optámos por não arriscar. 

A Caldeira Velha fica situada em plena floresta, numa das encostas da cratera do Vulcão do Fogo, e foi esse o nosso ponto de paragem seguinte. Existem 3 poças termais, abastecidas por água da nascente: uma, junto à cascata, com água a 25ºC e as outras que variam entre os 35 e 38ºC. Além disso, a Caldeira Velha dispõe também de uma grande riqueza natural e diversidade de vegetação – muito exótica, diria. Em diferentes locais, é possível ver a água a fervilhar, com inúmeros sinais de perigo devido à temperatura da água. Visitámos o Centro de Interpretação e fomos experimentar a piscina termal mais quente. Como o tempo estava fresco e a chover ligeiramente soube ainda melhor. Seguimos depois até à Ribeira Grande, onde demos uma volta e fizemos um almoço rápido no Miradouro do Palheiro.

A paragem seguinte foi a Lagoa do Congro. Para lá chegar, seguimos caminho pela estrada principal que segue para as Furnas, até chegar um desvio para uma estrada de terra batida. Estacionámos no final da estrada e descemos o trilho em ziguezague pelo meio da densa vegetação da encosta da cratera do vulcão. A caminhada demora cerca de 20/30 minutos, por entre árvores centenárias e raízes selvagens, e leva-nos até à (pequena) margem da lagoa de águas verde-musgo. A Lagoa do Congro não é das principais atrações da ilha e, por isso, contando connosco, estavam lá meia dúzia de pessoas. Ali, respira-se ar puro no seu esplendor, num silêncio e paz difíceis de igualar. A Lagoa do Congro tem cerca de 1.250 metros de perímetro e encontra-se no fundo da cratera, rodeada por árvores densas em toda a sua volta – o que lhe atribui um encanto especial.

Quando estávamos a voltar ao carro, fomos abordados por um casal holandês, que nos perguntou se lhes podíamos dar boleia. Como o caminho era só um, dissemos que sim e fomos à conversa – ficámos a saber que andavam a explorar os Açores à boleia, e que costumavam viajar desta forma por outros países. Como iam para as Furnas, levá-los lá, antes de fazer o caminho de volta para o norte da ilha, onde aproveitámos o final de tarde na Praia dos Moinhos.

No caminho de regresso a casa, fizemos um pequeno desvio para a vila de Rabo de Peixe, e fomos jantar à Associação Agrícola de São Miguel. Claro que não podíamos deixar de experimentar os tão afamados bifes dos Açores e por isso pedimos 2 “Bifes à Associação” – 300 gr de bife da vazia numa reinterpretação do típico “Bife à Regional”. O restaurante é grande, mas convém marcar com antecedência. Como fomos cedo, acabámos por ter sorte e arranjar lugar sem marcação (tínhamos tentado ligar várias vezes).

Dia 7 | Rota do Chá e Furnas 

No penúltimo dia, dedicámos parte da manhã a conhecer as plantações de chá da ilha, na região de Ribeira Grande. A Fábrica de Chá de Porto Formoso e a Gorreana são as únicas plantações de chá para fins industriais da Europa.

A primeira paragem foi precisamente na Fábrica de Chá de Porto Formoso, onde fizemos uma visita guiada por esta pequena fábrica e provámos, numa sala que faz lembrar uma cozinha típica micaelense, uma das 4 variedades de chá ali produzidos. No final trouxemos uma embalagem de Azores Home Blend, um lote especial inspirado no fabrico caseiro de chá que ainda se mantém em alguns locais da ilha.

Seguimos até à Gorreana, a cerca de 1,5 km. Pelo caminho podemos ver as plantações de chá de ambos os lados da ilha. A fábrica é bem maior e mais industrializada que a anterior, não fosse o maior produtor da ilha. Aqui, para além de visitar o interior da fábrica – que nos faz percorrer todo o processo de produção – e provar os chás, descemos também às plantações, onde é possível andar junto às plantas do chá (bate a saudade do incrível Sri Lanka).

Apesar de ambas as fábricas valerem uma visita, a fábrica de Porto Formoso é a mais bonita e interessante. Como se situa num declive sobre o mar, a vista panorâmica e acentuada é brutal. É também possível fazer um trilho por entre as plantações, uma verdadeira “rota do chá açoriano”.

Seguimos em direcção às Furnas, onde passámos o resto do dia. O Vale das Furnas fica no centro da cratera do Vulcão das Furnas, considerado um dos mais ativos da ilha. É precisamente essa atividade vulcânica que aquece o solo e as águas da região, fazendo com que se torne uma atração imperdível para quem visita São Miguel.

Por curiosidade entrámos no OMIC (Observatório Microbiano dos Açores) e como o bilhete era apenas 1€ decidimos visitar a exposição “Micróbios Mal-Entendidos”, e ficar a conhecer um pouco mais sobre a biodiversidade microbiana existente nas ilhas dos Açores. O OMIC situa-se numa antiga Casa de Banhos Termal e ali perto existem imensos pontos com caldeiras a fervilhar a altas temperaturas.

Seguimos até à zona central das Furnas, local com várias caldeiras que libertam vapores e o tão característico cheiro a enxofre, e é impressionante ver esta verdadeira força da natureza. Não quisemos deixar de experimentar o famoso Cozido das Furnas e por isso fomos almoçar ao restaurante O Miroma, onde tínhamos feito reserva horas antes. Apesar das opiniões não serem consensuais – há quem adore, há quem odeie -, até gostámos do cozido. Ao contrário do que muitas pessoas relatam, não sentimos o cheiro forte a enxofre. Para desmoer o almoço, demos um longo passeio a pé pela vila das Furnas, antes de regressar ao carro e ir até à Lagoa das Furnas.

É nas margens da Lagoa das Furnas que situam as inúmeras caldeiras em que são cozinhados, diariamente, os Cozidos das Furnas. As panelas são colocadas por voltas das 6:00 e retiradas às 12:30 para o almoço, altura em que são colocadas as do jantar. Como estávamos a passear pelas margens por volta das 16:30, ainda conseguimos ver umas panelas a serem retiradas – provavelmente já a preparar o jantar. As panelas são colocadas em buracos na terra, fechados com uma tampa de madeira e cobertos com terra, onde ficam a cozinhar lentamente durante cerca de 6 horas. Cada caldeira tem um número e uma placa do restaurante correspondente. Apesar de serem muito utilizadas pelos restaurantes que vendem este prato, qualquer pessoa pode cozinhar ali o seu próprio cozido.

Regressámos ao centro das Furnas e seguimos até ao Parque Terranostra, um dos mais fascinantes jardins botânicos que já vi. Foi, inclusive, nomeado como um dos mais belos jardins do mundo pela conceituada revista Condé Nast. A entrada custa 8 euros, e é possível passar o dia no parque. Seguimos o roteiro indicado no mapa que nos deram à entrada, que percorre os principais pontos do parque e que dura cerca de 1 hora.

O Parque Terranostra tem mais de 200 anos de existência e foi ampliado inúmeras vezes pelos seus proprietários até chegar à dimensão que tem hoje: mais de 1.200 hectares com uma riqueza e diversidade de plantas e árvores incomparável. Para se perceber a grandeza, o parque tem mais de 600 espécies de camélias, algumas delas únicas no Mundo. Terminámos a visita no Tanque de Água Termal, o ex-libris do parque. Esta enorme piscina com água alaranjada (devido à grande concentração de ferro), a uma temperatura que varia entre o 35ºC e 40ºC, é um grande atrativo para turistas e locais. Dica: levar um fato de banho velho, já que é provável que a roupa fique cheia de ferrugem. A água, carregada de minerais essenciais, é uma das melhores formas de recuperar as energias e relaxar.

Saímos do Parque Terranostra e seguimos a pé até à Poça da Dona Beija, um outro parque de piscinas termais no meio da natureza. No seu interior, existe uma nascente termal que abastece as cinco piscinas de diferentes tamanhos, profundidades e temperaturas que ali existem. Nós andámos de piscina em piscina, começando numa das mais quentes. 30 minutos e comçamos a sentir os efeitos do calor da água, por isso o ideal é dar um “mergulho” numa piscina com água (um pouco mais) fria. A entrada custa 8 euros e como o parque está aberto até às 23:00, aproveitámos para ficar lá ficar até quase ao anoitecer.

Os banhos de águas termais das Furnas – quer no Tanque Termal do Parque Terranostra, quer na Poça da Dona Beija -, são muito procurados por quem tem interesse nas suas propriedades medicinais, como auxílio no tratamento de reumatismo, diabetes e doenças de pele. Mesmo para quem procura esta vertente medicinal, as piscinas têm um ótimo efeito relaxante, principalmente depois das caminhadas diárias a explorar a ilha.

No caminho de regresso a casa, parámos no Miradouro do Pico do Ferro, com uma vista panorâmica para a Lagoa das Furnas, mesmo a tempo de ver os últimos minutos de luz do dia. Os últimos raios de sol rapidamente desapareceram e deram lugar a uma paisagem iluminada apenas com pequenos pontos de luz do Vale das Furnas e arredores.

Dia 8 | Ponta Delgada e arredores

Como o nosso voo para Lisboa era só ao final do dia, deixámos a visita à capital micaelense para o último dia. Acordámos cedo e deixámos tudo preparado para o check-out mais tarde e saímos até ao centro de Ponta Delgada. Estacionámos o carro junto ao tribunal e seguimos a pé até ao Mercado de Graça, que é uma ótima opção para conhecer melhor o quotidiano dos habitantes locais, e também para descobrir produtos regionais. Devido às condições naturais das ilhas, são muitos os alimentos únicos que se podem encontrar nos Açores. O mercado em si é um sítio banal, mas podemos encontrar de tudo um pouco: peixe fresco pescado em águas açoreanas, produtos agrícolas que vão desde a famosa pimenta da terra ao inhame, batata doce ou ananás. A Pimenta da Terra é um produtos mais característicos de São Miguel, que faz parte das receitas regionais, e muito utilizado para colocar em cima do queijo fresco (excelente!). Aproveitei para comprar uns pequenos frascos desta pimenta e uns doces de ananás e maracujá para trazer para casa.

Seguimos pela marginal até à Marina de Ponta Delgada, as Portas do Mar, e subimos um enorme lance de escadas do que parece ser um anfiteatro ao ar livre. Do topo é possível ter uma vista panorâmica da marina e da cidade. Voltámos a parar nas Portas da Cidade, agora durante o dia, antes de seguir rua acima até ao Louvre Micaelense, um café cheio de história onde tomámos o pequeno-almoço. A caminho, podemos encontrar a Igreja Matriz de São Sebastião. Demos mais umas voltas pelo centro, antes de regressar a casa para ir buscar as malas. Parámos também junto ao Forte de S. Brás, monumento construído no século XVI para proteger a cidade dos ataques e piratas.

Com o check-out feito, e como ainda tínhamos algumas horas, decidimos ir até Vila Franca do Campo. Mas à medida que nos deslocávamos para este da ilha, o tempo foi piorando. Até que começou a chover, o que acabou por estragar por completo os nossos planos. Parámos apenas uns minutos para ver o ilhéu de Vila Franca do Campo ao fundo, e decidimos que o melhor era regressar a Ponta Delgada. O pitoresco ilhéu é um dos pontos altos de uma visita a São Miguel. É possível visitar o ilhéu e passar lá o dia, o que no nosso caso, vai ter que ficar para outra altura.

Pelo caminho parámos na Cerâmica Viera, uma fábrica de cerâmica em Lagoa. Fundada em 1862, esta fábrica tem-se mantido na mesma família por 5 gerações. Na fábrica, que pode ser visitada gratuitamente, é possível acompanhar todo o processo de fabrico artesanal da famosa louça e azulejos de São Miguel, feitos manualmente e na roda de oleiro. Existe ainda uma loja onde é possível comprar peças de cerâmica, e onde o azul é a cor dominante. 

Outro ponto de interesse em São Miguel são as plantações de ananás. A cultura do ananás, originário da América do Sul, foi introduzida na ilha no século XIX, concentrando-se a maior parte da produção nos arredores de Ponta Delgada. E foi precisamente essa a nossa paragem seguinte: as plantações “Ananases Santo António” e “A. Arruda”.

A primeira é uma plantação relativamente pequena e familiar, responsável por uma pequena percentagem da produção da ilha. Fizemos uma visita guiada às estufas e, no final, bebemos uma Kima de Ananás – uma bebida ligeiramente gaseificada produzida na ilha e que é dos produtos locais mais apreciados.

Uns quilómetros acima, visitámos aquele que é o maior e mais antigo produtor de ananases da ilha. Em ambas as plantações, é possível ver-se ananases nas estufas em diferentes estágios de crescimento, que demora 18 meses desde o momento em que são plantados até serem colhidos.

De regresso a Ponta Delgada, íamos petiscar no restaurante “A Tasca” antes de irmos para o aeroporto, o que acabou por não acontecer. Depois de mais de 25 minutos à porta à espera para sermos atendidos, a meio da tarde e com várias mesas disponíveis, desistimos. Como estávamos a ficar com pouco tempo, fomos até ao Café Central de Ponta Delgada e comemos um bolo lêvedo com chouriço e seguimos para o aeroporto.

Enquanto esperávamos pelo avião (que à suposta hora de partida ainda nem tinha chegado de Lisboa), aproveitei para comprar algumas iguarias locais, como bolo lêvedo e queijadas de Vila Franca do Campo.

Já no avião, despedimo-nos da magnifica ilha de São Miguel com uma vista área incrível para a ilha verde. Naturalmente, ficou também com a promessa de regressar em breve aos Açores para explorar as restantes ilhas.


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