Memórias de Viagem

Choeung Ek, os campos de extermínio do Khmer Vermelho

Uma das visitas mais marcantes da viagem à descoberta da Indochina foi aos Campos de Extermínio de Choeung Ek, também conhecidos por The Killing Fields, nos arredores de Phnom Pehn, a capital do Camboja.

Quando se fala no Camboja, uma das primeiras coisas de que nos lembramos são os incríveis templos de Angkor Wat, que ficaram mundialmente famosos depois do seu aparecimento no filme Lara Croft: Tomb Raider. Mas existe todo um passado (bem recente) sombrio, desconhecido por muitos e raramente falado nos livros de história, que vale a pena dar a conhecer ao mundo. Falamos daquele que foi um dos maiores e mais horrendos genocídios da história da humanidade. É parte desse passado que revisitamos no Choeung Ek Genocidal Center: o genocídio do Camboja.

Começando precisamente pelo fim, e para um pouco de contexto, deixo a transcrição do final da narração do audio guide que nos é dado à entrada de Choeung Ek:

“This was hardly the first case of genocide. We never thought it could happen here. But it did. And the thing is, it can happen anywhere. It did in Nazi Germany. And in Russia, under Stalin. And in China. In Rwanda. In the US, with its Native Americans. And in Argentina, and in Chile. Tragically, it will probably happen again. So for your sake, remember us – and remember our past as you look to your future.”

“Be quiet, please!”, indica a placa à entrada do antigo campo de extermínio do Khmer Vermelho, enquanto ao longe se vê o memorial – o símbolo maior da campo que representa a última paragem da visita. Mas nem era preciso tal placa. Um silêncio ensurdecedor, especialmente consideradando a quantidade de pessoas que ali se encontram. O ambiente que se sente antevê o que aí vêm. É pesado e triste, mas não mais que as histórias que ouviremos a seguir, muitas delas contadas na primeira pessoa por sobreviventes e vítimas deste cruel regime.

Ros Kosal é o nome do cambojano, um dos sobreviventes, que nos guia na caminhada que se segue. Kosal começa por nos contar o que ali se passou entre 1975 e 1979. Mais de 17 mil pessoas foram mortas em Choeung Ek. Mas este é apenas um dos mais de 300 campos de extremínio espalhados pelo país. Hoje, é o principal monumento em memória de todos os que perderam a vida – ali, e um pouco por todo o Camboja.

Today, this place is known as the Choeung Ek Genocidal Center. With its trees and birdsong, it has a peaceful feeling. But as you walk, look down – you’ll see the terrible truth in the fragments of bone and cloth at your feet.

Para melhor compreender o que vem a seguir, recuamos a 1975 – a data que marca o início da revolução no Camboja. Pol Plot, o líder do Khmer Vermelho, ambicionava uma sociedade comunista puramente agrária. Em poucos dias, forçou a saída de milhões de habitantes das grandes cidades rumo ao campo para trabalhar na agricultura. Rapidamente as grandes cidades ficaram vazias e deu-se início a um intenso processo de perseguição a todos aqueles que eram considerados “inimigos do regime”.

À medida que ouvimos a narrativa na voz serena, agora em paz, de Kosal dirigimo-nos até à segunda paragem, marcada por uma simples placa de madeira. Era ali que paravam os camiões carregados de pessoas, todas elas com o mesmo destino. É também ali que começa realmente a nossa jornada. A partir dali, e seguindo todas as paragens, revivemos as atrocidades de Choeung Ek e e ficamos a conhecer melhor a história do genocídio que aconteceu no Camboja.

Seguem-se os locais onde outrora os prisioneiros eram detidos, quando eram demasiados para serem mortos de imediato, e permaneciam na escuridão a aguardar pelo dia seguinte; e o escritório do Khmer Vermelho. Em vez de edifícios, o que encontramos hoje é apenas um vazio de terra batida. Um vazio deixado pelos sobreviventes que, assim que terminou o regime de Pol Plot, destruíram tudo o que existia naquele local.

A sexta paragem é, mais uma vez, o local onde havia o edifício em que se guardavam substâncias químicas utilizadas para aniquilar os prisioneiros. Mais à frente, uma fileira de árvores demarca o local das execuções – os verdadeiros“killing fields”. Logo a seguir, encontramos uma vala comum, onde 450 corpos foram encontrados.

A paragem seguinte assinala a antiga sala das ferramentas. Ferramentas que outrora se destinavam à agricultura eram utilizadas para matar. É que as balas eram caras e o Khmer Vermelho não as utilizava com frequência. Por esta altura, ouvimos mais um exemplo dos slogans utilizados pelo regime: “better to kill an innocent by mistake than to spare an enemy by mistake”. Engolimos em seco e continuamos a caminhada, ao mesmo tempo que a voz de Kosal nos pede para ter atenção por onde andamos – é que existem fragmentos de ossos no chão, que com o tempo foram reaparecendo de entre a lama. Ali perto, as marcas no solo assinalam outras tantas valas comuns ali encontradas, e hoje vazias. A restante longa caminhada leva-nos até ao lago, onde se encontram mais de 40 valas nunca tocadas – muitas delas debaixo de água. 43 das 129 valas comuns ali encontradas foram deixadas intocadas – não para esconder os factos, mas para que pudessemos ver de perto a verdade nua e crua, tal como ela aconteceu. Escolheu-se deixar as vitimas descansar em paz.

Na 12ª paragem somos convidados a continuar a caminhada em redor do lago, enquanto ouvimos as histórias de 9 sobreviventes. Histórias tristes e dolorosas, mas que nos ajudam a aliviar a raiva e agonia em relação ao que aconteceu. São histórias reais sobre o que aconteceu no Camboja. Histórias sobre dor, sofrimento e trauma, mas também sobre resiliência, cura e esperança. A última destas histórias, a mais longa de todas, é sobre um sobrevivente que dedicou a sua vida a ajudar a tentar sarar as feridas (físicas e psicológicas) deste país.

De volta ao roteiro, somos conduzidos pelos buracos descobertos das valas comuns que abrigavam centenas de corpos – muitas das partes grandes desses corpos foram escavadas e hoje estão guardadas no memorial que encontramos à entrada. As valas estão protegidas e rodeadas de estacas de bambu que as delimitam – e cada uma destas esta está repleta de milhares de pulseiras coloridas, que simbolizam uma homenagem solene aos que ali perderam a vida.

Junto a uma destas valas comuns há uma enorme e bonita árvore que esconde uma história terrível. Na placa lê-se “killing tree against which executioners beat children”. Esta árvore servia para espancar bébes e crianças pequenas até a morte. Segundo os ideais do Khmer Vermelho, a melhor forma de evitar uma vingança futura era assassinar toda família. Mais à frente, encontram-se caixas com vestígios das vítimas – roupas, acessórios, ossos, dentes. Estas caixas são um símbolo tradicional do Camboja: as caixas de espíritos são um reflexo das crenças mais antigas e simbolizam o respeito por aqueles que já partiram – e uma morada eterna para os que não encontraram descanso. Novamente, um pouco por todo o lado, o contraste colorido das centenas de pulseiras dá alguma vida ao que ali se passou.

Por alguma razão, foram estas pulseiras umas das coisas que mais me marcaram. Talvez porque simbolizam um sinal de esperança. Não por aqueles que perderam a vida, mas por todos os que ali passam. Um sinal de esperança para o futuro. Um sinal de que quem ali esteve, leva consigo a verdadeira história do que aconteceu no Camboja. Na esperança nos lembremos sempre dela, e que nunca deixemos que volte a acontecer.

Nada do que se vê hoje em Choeung Ek se compara minimamente aos horrores encontrados pelos que ali chegaram pela primeira vez após a queda do regime. Relatos da altura indicam que ainda era ainda possível ver as manchas de sangue um pouco por todo o lado, ou resto de carne e massa encefálica no tronco da Killing Tree – e à medida que ouvimos isto, um frio gélido percorre-nos o corpo. Antes da derradeira paragem, encontramos a “árvore mágica”, uma árvore com uma caixa de música que tocava uma melodia incessante que tinha como objetivo camuflar os ruídos de dor dos massacres.

Em passo lento e pesado, voltamos ao ínicio. Desta vez para entrar na estupa memorial que foi construída em 1988 para preservar a memória das vítimas do extermínio. É um edíficio típico budista com 17 níveis, onde cada um deles contém milhares e milhares de crânios e ossos de muitos dos que perderam a vida ali em Choeung Ek. Tantos outros encontram-se ainda soterrados – não havia espaço suficiente para os guardar a todos. Os primeiros dez níveis estão repletos de crânios, ordenados e categorizados. Quando olhamos atentamente podemos ver como é que cada vítima foi executada: uma enorme racha de um machado, ou um buraco de um martelo.

No total, são 19 as paragens que nos guiam pelas atrocidades que aconteceram naquele local. A última, a despedida (“farewell”), leva-nos até ao Museu Choeung Ek, onde é possível encontrar um pouco mais de vestígios e da história do genocídio no Camboja. É ao som de “Oh Phnom Penh”, uma música escrita depois da libertação do regime de Khmer Vermelho em 1979, que nos despedimos de Choeung Ek.

Cerca de 3 milhões de cambojanos perderam a vida sob o regime de Pol Plot. 3 em 8 milhões de cambojanos. Mais de um terço da população do Camboja na altura foi aniquilada pelas mãos do seu próprio povo. 3 anos, 8 meses e 20 dias foi quanto durou este atroz regime. 3 anos, 8 meses e 20 dias a mais que alguma vez deveria ter durado.

Das 17 mil pessoas que se estima terem passado por Choeung Ek, poucos foram os que sobriviveram. Por entre os restos mortais encontrados maioritariamente de cambojanos, encontram-se 9 ocidentais – um australiano, 2 franceses e 6 americanos. O mundo não sabia o que se passava no Camboja naquela época – e continua a não saber. Contudo, aos poucos, vamos ficando a conhecer a história do genocídio que aconteceu no Camboja. Mas essa não é a história do Camboja. A verdadeira história é aquela que levamos connosco. É história de um povo que perdeu praticamente tudo, que de forma heróica renasceu das cinzas e olha agora para o futuro sempre com um sorriso genuíno no rosto.

Enquanto todos sabemos pelo menos o básico sobre o que aconteceu na Europa durante o Holocausto, quase ninguém ouviu falar das atrocidades ocorridas no Camboja na década de 70. A intenção deste post é precisamente essa: contar a história do que aconteceu no Camboja. Da mesma forma, sempre que falo sobre a viagem ao Camboja, faço questão de falar sobre Choeung Ek ou Tuol Sleng, e do genocídio do Camboja. Pouco a pouco, talvez um dia o mundo saiba lembre também da história do que se passou no Camboja. Porque hoje não é apenas um história que ouvimos falar de geração em geração, ouvimo-la pela boca da atual população do Camboja – homens e mulheres adultos que eram apenas crianças na altura.

É, sem dúvida, uma visita que aconselho em qualquer viagem ao Camboja. Não é um lugar bonito, nem um local fácil de visitar. É uma visita dura e que dificilmente deixará alguém indiferente, mas é uma importante viagem ao passado, naquele que é um dos lugares mais cruéis da história do Camboja. Indepentemente da visita, aqui fica a transcrição completa do audio tour, que vale muito a pena ler (e refletir).

Termino relembrando novamente as palavras de Ros Kosal:

“So for your sake, remember us – and remember our past as you look to your future.”