Crónicas em Viagem

Dia 16 e 17 | Phnom Penh, a sorridente capital do Camboja

Chegamos ao aeroporto de Phnom Penh já de noite, já que o voo saiu de Ho Chi Minh com quase 2 horas de atraso. À chegada vamos levantar dinheiro e comprar um cartão SIM. Deparamo-nos com uma surpresa: as máquinas só tinham dólares disponíveis. Como andávamos a saltar de uma máquina para outra, um segurança explica-me que podemos levantar dólares, que a moeda é aceite em todo o lado. Estranhamos, mas lá levantamos os malditos dólares americanos. Mais tarde percebemos que é mesmo assim. Praticamente todos os estabelecimentos tem os preços em dólares). Já no balcão para comprar o cartão, perguntam-nos quantos dias vamos ficar no Camboja. Assim que digo “6 dias”, respondem-me “unlimited plan for 5$” – estamos mesmo no Sudoeste Asiático? Lá compramos o cartão com dados ilimitados e chamamos um Grab para nos levar ao hotel. No meio dos muitos motoristas, aparece um com um sorriso de orelha a orelha a dizer “Miss? You call Grab?”. Era o nosso motorista.

À porta do hotel, que na realidade era uma guesthouse (The Artist Guesthouse), íamos pagar com uma nota de 100 dólares e só vemos os olhos arregalados do motorista, típico de quem poucas vezes tinha lidado com tanto dinheiro. Ri-se (meio envergonhado, diria) e mostra a carteira em sinal de que não tem troco. Vou à pedir para trocar por notas mais pequenas e lá pagamos o táxi, entre muitos sorrisos. Foi um primeiro sinal da simpatia e bondade das pessoas deste país.

Deixámos as malas no quarto e saímos para jantar num restaurante alí perto. O Friends the Restaurant é um mais do que um simples restaurante, é uma escola de restauração que ajuda e treina jovens desfavorecidos. Além de servir refeições e um serviço de qualidade, os jovens são formados de forma a arranjarem emprego na indústria hoteleira, preparando-os assim para um futuro melhor. É o que se costuma chamar a “comer por uma boa causa”. No caso do Friends (existem outros restaurantes desta organização – TREE), o conceito é o da partilha de pratos típicos de todo o mundo, confecionados de forma criativa.

No dia seguinte, tomamos o pequeno-almoço no café por baixo da guesthouse e seguimos em busca de um tuk-tuk que nos levasse até aos Campos de Extermínio Choeung Ek, também conhecidos como The Killing Fields of Choeung Ek. Acordamos que por 20 dólares nos levaria até lá e, no regresso, fazíamos paragens no Russian Market e no Museu do Genocídio Tuol Sleng. Pelo caminho, o motorista faz questão de parar no Neak Banh Teuk Park para ver a estátua do antigo rei do Camboja. Debaixo de uma enorme estupa dourada encontra-se a estátua do Rei Norodom Sihanouk, o muito adorado “Rei-Pai do Camboja”. Paramos também no Independence Monument para uma fotografia. Este monumento é uma enorme flor de lótus a desabrochar no meio de uma rotunda, que presta simboliza à independência do país do domínio francês.

Depois de 40 minutos por entre pequenas povoações que nos permitem ver o verdadeiro Camboja, para além da sua capital, chegamos aos Killing Fields of Choeung Ek. Preparamo-nos para ficar a conhecer a triste história do povo cambojano. Não há palavras que nos preparem para o que nos espera a seguir. O bilhete custa 6 dólares e incluí um audio guide (que recomendo!), que nos faz recuar mais de 40 anos e nos conta a história de um dos maiores genocídios que há memória, pela voz de um cambojano que sobreviveu para a contar. É uma história díficil a que conto a seguir. É a história do que aconteceu no Camboja.

Recuemos então a 1975. Terminada a Guerra do Vietname, dá-se uma revolução no Camboja pelas mãos do Partido Comunista de Kampuchea, ou o Khmer Vermelho – como ficara para sempre conhecido -, e do seu líder Pol Plot. A sua ideia era a de criar um país autossuficiente e uma sociedade comunista puramente agrária. Deu-se então uma evacuação total das grandes cidades, especialmente da sua capital Phnom Phen. Milhares de famílias foram aleatoriamente separadas e enviadas para campos de trabalho, onde o objetivo (que nunca se realizou) era duplicar a produção de arroz. Os mais jovens eram treinados para integrar a milícia, enquanto homens, mulheres e crianças eram forçados a trabalhar em condições desumanas. Intelectuais, professores, médicos, advogados, ou qualquer pessoa que fosse instruída ou dominasse uma arte ou saber, deveria ser presa e executada. Estima-se que tenham morrido cerca de 3 milhões de pessoas em 4 anos, executadas, mortas pela fome ou pela doença. Em 1979, o Vietname invadiu o país e acabou com o regime do Khmer Vermelho. Pol Plot acabou por morrer de causas naturais, exilado e em prisão domiliciar. Em 2014, com 35 anos de atraso, os mais altos responsáveis do regime, ainda vivos, são condenados a prisão perpétua por crimes contra a humanidade, crimes de guerra e genocídio. Em tribunal, nunca reconheceram ser responsáveis pelas atrocidades de que eram acusados, tão pouco demonstaram sinais de arrependimento.

Esta é a história (resumida) de um dos maiores genocídios da história da Humanidade. É a história que marcou um país há mais de 40 anos e que ainda hoje deixa marcas bem visíveis no seu povo que, ainda assim, não deixa nunca de sorrir.

O local onde nos encontramos, o Choeung Ek Genocidal Center, foi em tempos um cemitério chinês. Até ser transformado num campo de extermínio na altura do Khmer Vermelho. A 17 km de Phnom Phen, longe de tudo, para que nunca se soubesse o que ali acontecera. Do antigo campo, pouco resta. Apenas memórias de um passado difícil de esquecer. Logo no inicio, encontra-se um enorme templo que, ao contrário de todos os templos, não tem figuras de Buda. Invés disso, numa vitrine com mais de 8 metros de altura com os restos mortais de precisamente 8.985 pessoas. Um memorial que pretende preservar a memória das vítimas do extermínio, e que somos convidados a visitar no final da visita.

A visita guiada leva-nos numa caminhada à volta do campo, com 18 paragens diferentes, marcadas por placas que indicam o caminho e que, sucintamente, explicam o que ali se passou. A primeira paragem é o local onde os prisioneiros eram deixados à chegada, e executados das mais diversas formas. À excepção das balas, que raramente eram utilizadas – para economizar. Entre as paragens, localizam-se valas comuns (43 das 129 foram mantidas intactas), onde foram encontrados milhares de corpos – uns decapitados, outros sem pele, todos sem vida -, e caixas de vidro com as roupas das vítimas. Todas elas, sem excepção, decoradas com milhares de pulseiras coloridas, numa homenagem solene a todos os que ali perderam a vida.

Seguindo o áudio, somos convidados a sentar-nos ou a caminhar à volta de enorme lago, e ouvir os testemunhos reais daqueles que conseguiram sobreviver. Apenas uma profunda tristeza e revolta é o que nos preenche a mente. Outra paragem marcante é uma enorme árvore, que guarda mais uma história terrível. Esta árvore servia para matar crianças contra ela. Segundo o Khmer Vermelho, o melhor era matar toda a família para evitar uma vingança futura. Regressamos ao memorial que marca o final da visita e o início de uma profunda reflexão. Aqui, os milhares de ossos e crânios contam uma história. Cada um deles, está sinalizado e catalogado de acordo com o tipo de morte. É ainda possível visitar um pequeno museu com objectos da época.

Mais de 20.000 pessoas foram mortas alí, Choeung Ek. Ainda assim, este é apenas um dos mais de 300 campos de extermínio espalhados pelo país. Hoje, é o principal memorial para recordar todos os que morreram. Os mais de 3 milhões de Cambojanos, dos 8 milhões. Mais de um quarto da população do Camboja perdeu a vida, às mãos do seu próprio povo.

De volta ao tuk-tuk, tentamos digerir o que vimos enquanto fazemos a viagem de volta a Phnom Penh. À medida que vamos percorrendo o caminho, vemos o sorriso espelhado no rosto das crianças, jovens e adultos. É assim em todo o lado aqui no Camboja, apesar de tudo, nunca deixam de sorrir. Paramos no Russian Market para dar uma volta pelo mercado e acabamos por comprar algumas coisas, a preços irrisórios e depois de uma voraz negociação – estamos a ficar pros!

Segue-se a prisão S-21, hoje Tuol Sleng Genocide Museum, uma antiga escola primária no coração da capital que foi transformada numa prisão política para onde os inimigos do regime eram enclausurados e torturados ou enviados para Choeung Ek, os Killing Fields. Das mais de 17.000 pessoas que por ali passaram (incluindo 9 estrangeiros), apenas 7 sobreviveram. Cada prisioneiro que por ali passou foi fotografado e catalogado. É precisamente isso que ali encontramos. Entre as celas da antiga prisão, encontramos as fotografias dos milhares de crianças, homens e mulheres; às vezes fotografados antes e depois da tortura. Muitos deles, eram obrigados a confessar supostos “crimes” que tinham cometido. Chum Mey e Bou Meng, dois dos sobreviventes, depois de dias de tortura confessaram ser agentes secretos dos Estados Unidos, mesmo sem nunca ter ouvido falar da CIA. Muitos dos guardas, eram obrigados a torturar os prisioneiros sob pena de, eles próprios, serem executados se não o fizessem. São detalhes da história difícil que marcou o Camboja e as atrocidades cometidas pelo regime do Khmer Vermelho. À semelhança dos campos de extermínio, o bilhete (que custa 6 dólares) incluí um audio guide que nos conduz por entre as celas e edifícios da antiga prisão e nos leva a recuar no tempo e a revistar o passado obscuro do Camboja.

À semelhança do Museu da Guerra em Ho Chi Minh, no Vietname, os Campos de Extermínio de Choeung Ek e o Museu do Genocídio de Tuol Sleng não são locais fáceis de visitar, de todo. Mas vale a pena ir até lá e ficar a conhecer um pouco melhor a história recente e difícil que marcou o país. Como Ros Kosal, o narrador da história em Choeung Ek, recorda no derradeiro final da visita: “Este não foi o primeiro caso de genocídio. Nós nunca pensamos que poderia acontecer aqui. Mas aconteceu. E a questão é que pode acontecer em qualquer lugar. Aconteceu na Alemanha Nazi. Na Rússia de Stalin. Na China. No Ruanda. Nos Estados Unidos, com os seus nativos americanos. Na Argentina. No Chile. Tragicamente, vai provavelmente acontecer de novo. Mas para vosso bem, lembrem-se de nós – lembrem-se do nosso passado, enquanto olham para o futuro.” 

Seguimos o caminho a pé e, mais tarde, paramos para almoçar no Mok Mony, um restaurante de comida local muito procurado por cambojanos e também por turistas. Especializado na autêntica comida Khmer e cozinha asiática, este restaurante tem a particularidade de que se não se gostar do pedido, podemos para experimentar outro prato. Passamos o resto da tarde a passear por entre as ruas de Phnom Penh, até ao Palácio Real, a maior atracção de Phnom Penh.

Pelo caminho passamos novamente , agora a pé, pelo Monumento da Independência, que fica no coração de Phnom Penh, onde as avenidas Sihanouk Boulevard e Norodom Boulevard se cruzam.  Continuamos pelo Neak Banh Teuk Park, também conhecido como Dragon Park, até ao Wat Botum Park, um enorme jardim que no centro tem um monumento comemorativo da aliança entre o Vietname e o Camboja, o Cambodia-Vietnam Friendship Monument. Como era Dia da Criança, centenas e de centenas de famílias com crianças brincavam pelas ruas e pelos jardins da cidade, principalmente junto ao Parque do Palácio Real. Depois de um dia em que revisitámos o passado avassalador do Camboja, terminamos a tarde a ver os sorrisos no rosto de todos aqueles que representam o futuro do Camboja.

Ao jantar, resolvemos ir experimentar um restaurante do qual tínhamos lido boas críticas e que se destacava por ter uma piscina no seu interior. Já de ementa na mão, começamos a reparar que já tínhamos visto alguns pormenores em algum lado. O Romdeng faz parte do mesmo grupo de restaurantes onde tínhamos jantado na noite anterior. À semelhança do The Friends Restaurant, o Romdeng é um restaurante-escola que acolhe e ajuda jovens em dificuldades, mas a sua oferta gastronómica é mais focada na comida tradicional do Camboja.

No dia seguinte, acordamos cedo e vamos até a beira-rio do Rio Tonle Sap, zona conhecida como Riverside, e tomamos o pequeno-almoço na famosa padaria parisiense Eric Kayser. Seguimos caminho junto ao rio até ao Central Market, passando pelo Old Market. O Central Market é mais um dos mercados típicos onde se encontra de tudo, mas com a particularidade de ser localizar num antigo edifício estilo Art Déco, construído em 1937 em formato de cruz, visto do céu. Nas suas quatro alas e imponente cúpula no centro, encontram-se centenas e centenas de bancas com roupa, relógios, óculos, calçado, souvenirs, produtos electrónicos, tecnologia, perucas, acessórios para a casa, e tudo o que se possa imaginar.

De regresso à guesthouse, fazemos o check-out e ficamos a fazer tempo no café, onde acabamos por almoçar antes chamar um Grab e seguir para o aeroporto de Phnom Penh. Depois de termos mergulhado na triste e dura história do povo cambojano em Phnom Penh, partimos agora rumo a Siem Reap para visitar o ex-libris deste país: Angkor Wat. Siem Reap servirá de base para explorar o complexo de templos de Angkor e é o último destino da nossa viagem à descoberta da Indochina.

Mas não nos prendamos às marcas do passado cruel do Camboja. Phnom Penh é muito mais que a história dramática que carrega. A capital do Camboja é, hoje, um centro cultural, empresarial e político, e um lugar em expansão e crescimento. É o retrato exacto do momento que vive o Camboja: um jovem país que se reergue de um passado duro, que redescobre as tradições da cultura khmer e que olha esperançoso para o futuro, sempre (sempre) com um sorriso no rosto.

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