Diário de Bordo

Dia 14 e 15 | Ho Chi Minh, a agitada “pérola do extremo oriente”

O nosso voo com destino a Ho Chi Minh partia de Da Nang às 7:15 por isso saímos do hotel em Da Nanang às 5:00 da manhã. O voo atrasou e chegamos a Ho Chi Minh mais tarde do que tínhamos previsto, mas ainda a tempo para aproveitar o dia. À chegada ao aeroporto chamamos um Grab e vamos ao hotel (The Hammock Hotel Ben Thanh) deixar as coisas e saímos a pé para explorar a antiga da capital do Vietname do Sul.

Vulgarmente conhecida como Saigon ou Saigão, Ho Chi Minh é a maior cidade do país e o seu principal centro económico e empresarial. Apesar de se ver o movimento e vida típicos de uma cidade com perto de 8 milhões de pessoas, não se sente o caos que se sente em Hanói. As ruas são menos confusas, o barulho é menor, os edifícios estão mais arranjados e bem preservados, e os milhares de motas a abrir pelas ruas dão lugar a carros que até respeitam os sinais de trânsito.

A nossa primeira paragem foi o Museu da Guerra (War Remnant Museum), que teve um custo de 50.000 dongs (cerca de 1,9€). Entre os 3 pisos e jardins que compõe o museu é possível conhecer detalhes da história da Guerra do Vietname e do impacto que esta teve no país (e países vizinhos). Além de ser um relato da própria história, este museu tem também inúmeros vestígios da Guerra. Desde documentos, fotografias, armas ou roupas, a helicópteros e aviões norte-americanos, são vestígios reais que nos remetem para uma realidade que matou milhões de pessoas. Uma realidade difícil de encarar, muito menos de compreender!

Ainda que seja difícil uma história de guerra estar isenta de parcialidade, há factos que dificilmente não nos são indiferentes. O mais marcante é, sem dúvida, a parte dedicada ao “agente laranja”, o napalm. Esta toxina utilizada pelos americanos durante a guerra servia para destruir as florestas “onde o inimigo se escondia”. Porém, continha também uma substância cancerígena que matou milhares de pessoas e causou mutações genéticas a outros tantos milhares. Na sala dedicada a este facto, os testemunhos reais e fotografias das pessoas afetadas são chocantes. Rostos com histórias reais. Histórias com nome. Marcas de uma guerra que, ainda hoje, afeta a vida diária dos vietnamitas. Marcas que o tempo não apaga. Uma história bem real que nos faz refletir sobre a natureza humana. À saída, o silêncio – de quem não tem palavras para conseguir compreender tamanha atrocidade.

Seguimos até ao emblemático Palácio da Independência, ou Palácio da Reunificação (The Independence Palace). Depois de termos dado uma volta ao quarteirão, entramos por uma das entradas laterais (40.000 dongs). Passando pelos imensos jardins, repletos de árvores centenárias e muito bem conservadas, chegamos ao edifício principal. Este é um dos mais importantes edifícios do Vietname. Foi ali que se tomaram inúmeras decisões que traçaram o rumo do país. Foi também ali que a Guerra do Vietname se deu por terminada.

O antigo palácio presidencial possui gabinetes, salas de reunião, equipados com mobiliário da época, pequenos apartamentos, salas de jogo e até uma sala de cinema. Mas o mais interessante é a sua cave, onde se situava o bunker. Além de proteger as altas patentes, servia de centro de comando e comunicação e é possível ver ainda alguns dos equipamentos utilizados na altura.

O passeio por Ho Chi Minh continua e a paragem seguinte é mais exemplo da influência francesa no Vietname: a Catedral de Notre Dame (Notre-Dame Cathedral Basilica of Saigon). Infelizmente, a catedral encontrava-se em remodelações e não foi possível visitá-la. Mas o lado de fora é o suficiente para perceber as semelhanças à catedral original em Paris. Na praça, em frente a Basílica, encontra-se uma estátua da Virgem Maria, trazida de Roma em 1959.

Mesmo ao lado, outro edifício de arquitetura francesa: a Estação Central de Correios. Desenhado por Gustave Eiffel, este magnífico edifício com uma enorme cúpula é um dos mais bonitos da cidade. Na fechada tem um relógio incrível e por dentro faz lembrar uma antiga estação de comboios. Como já estávamos a meio da tarde e ainda não tínhamos almoçado parámos no McDonalds (shame on me!) que era ali mesmo ao lado e aproveitamos para decidir o roteiro para o resto do dia.

Seguiu-se o Saigon Opera House, também conhecido por Teatro da Ópera de Ho Chi Minh, um edifício impressionante mesmo no coração da cidade. As ruas desta zona dividem-se em restaurantes de luxo, grandes cadeias de hotel de topo, inúmeras lojas de marcas de luxo e grandes arranha-céus onde operam grandes empresas multinacionais. Caminhamos até à beira-rio, de onde conseguimos ver a crescer aquele que será o mais alto edifício do Vietname: o Vincom Landmark 81.

Foi precisamente num desses arranha-céus que terminamos a tarde. O Bitexco Financial Tower é um edifício de 68 andares, que até 2010 se assumia como o mais alto edifício do Vietname, e um dos locais ideias para assistir ao pôr-do-sol. Há um observatório no topo, mas nós decidimos subir até 52º andar e ver o sol a pôr-se (meio escondido) sobre a cidade, enquanto bebíamos uns cocktails no bar que ali existe – o EON Helibar. Do topo, Ho Chi Minh comprova que é uma cidade de contrastes e ao mesmo tempo uma cidade muito agitada e cheia de vida.

A manhã do dia seguinte foi passada a visitar o famoso Mercado Bem Than, a 5 minutos a pé do nosso hotel. Aqui, à semelhança da maior parte dos mercados do Sudoeste Asiático, é possível encontrar de tudo. Desde a malas, sapatos, roupa, comida, produtos para a casa, salões de cabeleireiro e manicure. Dificilmente não se encontra o que se quer por ali. Claro está que existe uma grande quantidade “produtos de marca”, que são obviamente produtos contrafeitos (mas cópias perfeitas dos originais, em alguns casos). Em qualquer compra que façamos, a palavra de ordem é só uma: negociar!

Seguimos a pé até Tan Dinh Church, uma pitoresca igreja católica pintada de uma cor fora do comum: cor-de-rosa. Apesar de não ser muito conhecida, é uma das mais antigas e mais importantes igrejas católica da cidade – a par com a Catedral de Notre Dame. Não foi possível visitá-la por dentro, porque se encontrava fechada. Pelo caminho, passamos ainda pelo Lago das Tartarugas, um lago situado numa praça que em tempos deve ter sido muito bonita, mas que agora se encontra praticamente ao abandono. As tartarugas, nem vê-las.

Perto da hora de almoço, apanhámos o autocarro público (6.000 dongs, ou seja, 20 cêntimos) regressamos ao hotel para tomar um banho rápido e fazer o check-out, pois dali a 2 horas temos de ir para o aeroporto. A nossa última refeição vietnamita foi feita no Den Long – Home Cooked Vietnamese Restaurant, um restaurante ali perto com comida excelente e empregados a transbordar de simpatia. Das primeiras coisas que nos perguntaram foi como é que se dizia “thank you” em português. No final, saímos de barriga cheia e com um simpático “obrigado” do empregado que nos acompanhou à porta. Perguntei como é que se dizia o mesmo em vietnamita e retribui. Cảm ơn bạn.

Curiosidade: o vietnamita é super difícil de aprender, já que é uma língua tonal. Ou seja, a entoação das palavras faz parte da semântica, o que significa que basta acentuar um pouco a entoação e já estamos a dizer outra coisa completamente diferente. Medo… – explicou-nos o Tan, o vietnamita que foi o nosso guia na viagem entre Hue e Hoi An.

Despedimo-nos de Ho Chi Minh e dizemos assim adeus ao Vietname. Para trás, fica um país incrível e um povo sempre de sorriso no rosto, mas que não esquece o seu passado difícil. Do outro lado, espera-nos um país com uma história igualmente díficil. Segue-se o Camboja e, numa primeira paragem, a sua capital Phnom Penh. Um país que vive ainda com as marcas bem vincadas de um regime que cometeu dos mais atrozes genocídios na história da Humanidade.