Diário de Bordo

Dia 7, 8 e 9 | Hanói e Halong Bay, e a história de quando tudo corre mal

Escrevo esta crónica do cruzeiro em plena baía de Halong, mas hoje a história tem contornos diferentes. Hoje, a história relata um daqueles momentos que não queremos que aconteçam quando estamos fora. É a história o dia em que rasguei a perna num coral, enquanto nadava em Halong Bay.

Mas primeiro, recuaremos algumas horas: depois sairmos de Luang Prabang, aterramos em Hanói. Tínhamos marcado o hotel (Dragon Pearl Hotel) para passar a noite em Hanói e seguir num cruzeiro por Halong Bay no dia seguinte de manhã, numa viagem de 2 dias e 1 noite. A chegada à Hanói foi tranquila, mas entrar no Vietname não é tão simples quanto entrar noutros países. Cerca de 50 minutos depois, estamos em Hanói. Uma palavra para descrever a cidade? Caos! Quem diz que Bangkok é uma cidade caótica, ainda não conheceu Hanói. Trânsito infindável, motas por todo o lado, todos sempre (sempre!) a buzinar. Ainda assim, um ritmo de vida impressionante. A primeira impressão é que Hanói está sempre a um ritmo alucinante.

Já no hotel, deixámos as nossas malas e saímos para jantar. Uma funcionária tinha-nos feito um mini roteiro e decidimos segui-lo. Ao chegar ao local onde ela nos tinha dito para jantar, encontramos um restaurante vazio e com um aspecto algo duvidoso. Andámos mais uns passos e acabámos num restaurante de rua mais composto, que pareceu menos mau. A primeira abordagem à comida vietnamita, no Vietname, não desilude. Uma mistura de sabores fortes e frescos, e extremamente deliciosos. Continuamos até ao famoso lago com uma ponte iluminada de encarnado, a Huc Bridge no Hoan Kiem Lake.

No dia seguinte, vêm-nos buscar para nos levar até Halong, onde apanharíamos o barco. Aproximadamente 5 horas depois, com uma paragem pelo meio, chegamos ao porto de Halong. Seguimos o nosso guia, que prefere que o tratemos por Jackie, e entramos a bordo de um pequeno barco, que nos leva ao cruzeiro onde iremos a explorar a baía durante 2 dias.

Já abordo do Galaxy Premium Cruises Halong Bay e com o check-in feito nos nossos quartos, o Jackie faz-nos uma descrição detalhada do programa das festas. Íamos almoçar dentro de momentos, pratos típicos da cozinha vietnamita feitos pelo chef, e a meio da tarde sairíamos para fazer kayak no meio da baía, já bem longe de terra.

Foi aqui, num local certamente muito próximo do paraíso, que tudo aconteceu. O passeio de kayak incluía uma paragem numa pequena praia deserta num das formações rochosas. Depois de algum tempo a nadar de um lado para outro, decido ir nadar mais para fora da baía formada pela praia. É ai que bato com a perna em algo e sinto arranhar. Como estava a nadar perto das rochas, até estava com muito cuidado, mas não houve como evitar. Quando olho para a perna, vejo que não era só um arranhão. Pânico! Começo a nadar em direção à praia com a mão a tentar estancar a ferida, que assim que saio da água começa a deitar sangue por todos os lados. Vou até ao barco pedir ajuda. A cara de pânico de quem lá estava, fez-me perceber que era grave. A partir daqui, foi toda uma sucessão de acontecimentos que só consegui ouvir, porque comecei a ver tudo branco e desfocado. Eu, só conseguia dizer que estava tonta e que achava que ia desmaiar. Do outro lado, só ouvia gritos e desespero, de alguém sem saber o que fazer. O pequeno barco onde estávamos começa a voltar para trás, até ao cruzeiro. Passado um bocado (que me pareceu uma eternidade), começo a sentir-me melhor e a recuperar a visão. Entre o Jackie a dizer que não podíamos voltar para Halong, porque não tínhamos autorização (bem-vindos ao Sudoeste Asiático) e que quando chegássemos ao barco me ia dar “medicine”, lembro-me de ouvir uma das passageiras dizer que o pai era médico. Quando consigo recuperar os sentidos, vou ter com eles e peço que quando chegarmos que me ajudem pois ninguém da tripulação tem curso de primeiros-socorros e sabe como me ajudar. A toalha que tinha em volta da perna para estancar a hemorragia, estava encharcada de sangue, e eu a ver a coisa a correr mal. À chegada ao barco, vou passar-me por água limpa e mudar de roupa. Passado um bocado, aparece o Jackie com um kit de primeiros socorros. Digo-lhe que há um médico a bordo, o senhor da família indiana, e peço que ele o vá chamar. Acho que foi a minha salvação. Depois de ver com atenção a ferida, limpou-a e fez um penso, enrolando a perna em ligadura para poder começar a fechar. Pergunto-lhe se acha que temos que voltar e se devo ir a um hospital, e ele diz-me que não e que vai ficar tudo bem. Que se fosse a um hospital iria levar pontos para coser o corte (mas como não havia hospital possível até voltarmos a Hanói no dia seguinte, nada feito), mas que iria ficar bem, apenas com uma grande cicatriz. Para não me preocupar porque tinha a vacina do tétano em dia e tínhamos limpo e desinfetado a ferida. Bem-ditos kits de primeiros-socorros que levamos pelo sim, pelo não. Diz-me também que se começar a ter muitas dores ou febre para tomar os medicamentos. Agradeço-lhe imenso a ajuda e fico a descansar, porque as dores são algumas.

Já comigo recomposta (do susto, pelo menos), saímos para o andar de cima para a sunset party (que, entretanto, já estava a terminar). Ainda conseguimos ver o magnifico por-do-sol em Halong Bay. O sol no horizonte a pôr-se por trás de uma das muitas centenas de formações rochosas que compõem a baía, dando ao céu uns tons alaranjados. Um cenário épico. Tínhamos tido sorte porque apanhámos o céu praticamente azul e apenas com algumas nuvens, que até davam uma certa graça ao cenário. Menos sorte tinha tido eu, mas não se pode ter tudo, dizem. Passados algum tempo, é hora de jantar, também no andar de cima, com um cenário de fundo indiscritível. Comemos, novamente, um manjar dos Deuses vietnamitas, repleto de pratos com ingredientes frescos e vindos do mar. Depois de jantar ficamos um pouco no deck, mas acabamos por voltar cedo para o quarto para eu conseguir descansar em condições. Ainda não deviam ser 22:00, já eu tinha caído para o lado de cansaço

No dia seguinte, acordo às 5:30 para ver o nascer do sol. Como ainda tenho algumas dores e me custa andar, vejo-o apenas da janela do quarto. Volto a dormir mais um pouco e às 7:00 já estamos no convés para tomar o pequeno-almoço, porque de seguida vamos para numa das ilhas para visitar uma gruta. Prefiro tratar do penso só no regresso e ver como me sinto a andar. Apesar de ter dores e de me custar a andar, sinto-me bem. O que assumi que era um bom sinal dadas as circuntâncias.

Durante o passeio , o Jackie explica-nos melhor alguns factos sobre a baía. Ha Long significa “o dragão que desce”. Halong Bay, o local onde o dragão entrou no oceano, é considerada uma das 7 Maravilhas da Natureza, tanto pela sua importante riqueza histórica e cultural, como pela sua singularidade geológica. Não são as ilhas e ilhéus por si só que tornam única a baía de Halong, mas a quantidade de formações rochosas existentes. A baía dispõe de uma área de 15.000 km2 e é composta por mais de 2.000 ilhas, desertas e repletas de densa vegetação, que se elevam no mar verde-esmeralda e tornam o cenário épico.

A singularidade destas formações geológicas deve-se à acção corrosiva provocada pela água nas formações calcárias depositadas no fundo do oceano, no Golfo de Tonkin. Há milhões de anos atrás, esta área estava coberta de água, mas a subida e descida das águas ao longo dos milénios acabou por moldar enormes formações cársicas. Uma explicação menos científica e bem mais encantadora diz que, segundo a lenda, os dragões que viviam nas montanhas e ajudavam a defender terra dos invasores chineses, começaram a cuspir joias e jade, que depois se transformaram em ilhas e ilhéus, formando uma parede contra os invasores. Após a batalha, a família de dragões ficou lá a viver e a baía foi baptizada de Ha Long.

A gruta que visitamos foi a Thien Cung Grotto (Cave Sky Palace), com acesso através de uma densa floresta. É possível observar, mais uma vez, como a natureza é incrível. A gruta está repleta de estalactites e estalagmites. De volta ao barco, preparamo-nos para fazer o check-out do quarto porque depois disso vamos ter uma aula de cozinha vietnamita e almoçar, antes de regressar ao porto da baía de Halong, dando assim por terminado o passeio. Estava na altura de mudar o penso, mas ainda não me sinto com coragem para o fazer sozinha, sem ajuda profissional, então peço para chamarem novamente o médico indiano – o meu salvador. Depois do penso refeito, pergunto-lhe se está com mau aspecto e se devo ir a um hospital, diz-me novamente que não e que vai ficar tudo bem. Como me sinto bem, confio na palavra dele e começo a acreditar que vai correr tudo bem. Diz-me que vou ficar com uma grande cicatriz e na brincadeira digo que não faz mal, é uma marca para recordar Halong Bay. O Jackie ri-se, nervoso.

De volta ao convés, é altura de aprender a fazer os famosos crepes vietnamitas. Depois de vermos o chef a preparar os ingredientes e a fazer os crepes (os frescos, não os fritos), acompanhado de uma pormenorizada descrição de cada passo feita pelo Jackie. O almoço é servido e aproveitamos eos últimos momentos no cruzeiro, que atraca no porto por volta das 12:00. Segue-se novamente uma longa viagem de regresso a Hanói, onde nos despedimos do Jackie.

Ficamos novamente no Dragon Pearl Hotel e assim que me vêm com a perna toda ligada dizem para me sentar. Tínhamos pedido para marcar o autocarro para o dia seguinte para Hué, no centro do Vietname, mas, entretanto, lemos que o comboio era uma opção mais confortável e pedimos ajuda na recepção. Mais uma vez, foram extremamente atenciosos e trataram-nos de tudo e nós só tivemos que escolher e pagar.

Missão seguinte: descobrir uma farmácia para me abastecer. Descobrir a farmácia foi fácil, entender-me com quem lá estava, nem tanto. Lá consegui comprar o que queria, entre gestos e fotografias no Google. Seguimos caminho a pé até ao Quán Ăn Ngon, um restaurante a não perder em Hanói quando se quer ter uma verdadeira experiência da comida vietnamita. O menu tem dezenas de pratos e por isso pedimos ajudar ao empregado, que nos aconselhou 4 pratos típicos do Vietname. Depois de jantar, apanhamos um tuk-tuk bicicleta (não sei o nome técnico da coisa), que nos deixa ao pé do lago. Fazemos algumas paragens em algumas das centenas de lojas que existem pelas ruas e fazemos algumas compras, antes de regressar novamente ao hotel. Por ali, existe de tudo – da t-shirt a dizer “Good Morning, Vietnam”, à t-shirt claramente fraca imitação da Mochino, à mochila da Kånken – Fjällräven, que é uma cópia perfeita da original. Passamos ainda por um dos locais mais movimentados por backpackers e jovens vietnamitas, o Beer Corner

O dia seguinte é passado a explorar Hanói. Seguimos a pé até ao Hoan Kiem Lake, agora durante o dia, e entramos no Ngoc Son Temple. Seguimos então pelas ruas de Hanói, passando pelo Vietnam Revolutionary Museum (que estava fechado), pela Opera House, Quán Sứ PagodaHoa Lao Prison Museu, Vietnamise Police Museum, entre outros pontos de interesse da cidade. Esta é uma zona da cidade bem mesmo confusa do que a zona onde fica o nosso hotel. Os vendedores e lojas de rua dão lugar a prédios de arquitetura colonial, casa de importantes estabelecimentos da cidade e de grandes hotéis, restaurantes e lojas de luxo. Aproveito que estamos perto de um hospital para passar nas farmácias e comprar produtos para a minha ferida, pois vamos estar em viagem por cidade mais pequenas nos próximos dias e pode ser preciso. Vamos até ao Vietnamese Women’s Museum, um museu incrível que nos transporta para a realidade da mulher vietnamita ao longo da história e o seu papel na sociedade, na família e na moda.

Ao sair do museu, procuramos no Google um sítio para almoçar e aparece-nos uma referência do “The New York Times”, que destaca um restaurante para uma viagem de 36 horas em Hanói. Decidimos experimentar. O Hanoi Social Club é um pequeno restaurante cheio de pinta, com salas com decoração retro, pequenas mesas e sofás a fazer lembrar o conforto do lar. Além de funcionar como café, serve também refeições ao longo do dia e é casa de diferentes tipos de evento. Além disso, um dos pontos que torna o Hanoi Social Club único é o facto de os seus funcionários fazerem parte de uma organização chamada KOTO – uma organização que transforma a vida de jovens vietnamitas com poucas posses, através de um programa de ensino, que lhes atribui qualificações de chef que são reconhecidas mundialmente.

Preparamo-nos para regressar ao hotel, passando ainda pelo caminho pelo Vietnam Military History MuseumFlag Tower Of Hanoi, Lenin Park e Thăng Long Imperial Citadel. Já no hotel, peço para usarmos a casa de banho para mudar a minha ligadura antes de sairmos para o comboio noturno até Hué. À hora combinada, o táxi vai buscar-nos ao hotel e deixa-nos na estação de comboios de Hanói, onde trocamos os nossos vouchers pelos bilhetes eletrónicos.

Estou neste momento na cama da cabine do comboio a terminar esta crónica. Desde há dois atrás, quando a comecei a escrever em Hanói e, depois, em Halong Bay, muito se passou. De certo, uma experiência diferente. Apesar de ter algumas dores e de me custar a andar, já consigo mudar os pensos sem cair para o lado só de olhar para a ferida. O que acredito ser bom sinal. Saío de Hanói com um saco a mais, cheio de ligaduras, betadine, soro, compressas, fita adesiva, cicatrizante, ligaduras elásticas – uma pequena farmácia ambulante. Ficou muito de Hánoi por ver, mas tendo em conta as condições, ainda deu para sentir o ritmo louco desta cidade. Vemo-nos daqui a 14 horas, Hué.

[Best_Wordpress_Gallery id=”14″ gal_title=”Halong Bay”]