Diário de Bordo

Sri Lanka, um destino improvável que se tornou uma surpresa inesquecível

No início de 2016 um feliz acaso levou-me ao Sri Lanka, o meu primeiro destino asiático e seguramente um dos meus locais preferidos em todo o mundo. O Sri Lanka – a “pérola do Índico” ou  “lágrima da Índia” – foi um destino inusitado e tornou-se uma surpresa inesperada.

À chegada ao aeroporto Bandaranaike, em Negombo, encontrámos um país de clima tropical e aromas inconfundíveis. A viagem seguiu em direcção a Dambulla, cidade que serviu de base para explorar a região mais a norte do Sri Lanka e parte do triângulo cultural do país. A longa viagem, que demorou quase 4 horas para percorrer cerca de 170 quilómetros, fez com que chegássemos a Dambulla já o sol se tinha posto. A noite era escura e quente, com vagas de chuva tropical à mistura. O nosso motorista, que tínhamos contratado no aeroporto depois de muita negociação, ajudou-nos a encontrar a guesthouse (Pawana Rest), marcada horas.

À chegada, por entre caminhos de terra batida, muita vegetação e pouca luz, quem nos recebe é um senhor de sorriso simpático, mas que nem inglês fala. Com o motorista como intermediário, percebemos que se tratava de uma casa de uma família tipicamente cingalesa, que tinha dois quartos para alugar a turistas e que o negócio era gerido pelo irmão. Pouco confortáveis por irmos ficar apenas duas raparigas numa casa perdida no meio do que achamos ser o Sri Lanka profundo, partilhámos o nosso receio com o motorista e tentámos encontrar alternativas. A meio da conversa aparece um dos filhos, seguido pela mulher e outro filho do dono da casa, que simpaticamente nos oferecem águas engarrafadas geladas (que tinham ido a correr comprar ao mercado mais próximo). Sem saber bem o que fazer, agradecemos a gentileza; mas continuamos com receio de passar a noite num sítio desconhecido e sem conseguir comunicar. Mais tarde, percebemos que realmente o que importa não é falar a mesma língua: há linguagens que são de facto universais.

Entretanto lá aparece o tal irmão do dono da guesthouse, que fala inglês, e nos explica que é ele que gere esta e outra casa – como um pequeno negócio de família – e que podemos estar descansadas. Já meio convencidas, acabamos por entrar e conhecer os quartos – que apesar de simples, estavam em excelentes condições. Cansadas, acabámos por decidir ficar durante aquela noite e que decidíamos o que fazer no dia seguinte. A noite foi passada em alerta máximo e qualquer barulho parecia que despertava em nós um efeito ninja: principalmente quando um gato entrou a toda a velocidade pela janela do nosso quarto, que estava aberta tal não era o calor. Ou quando apareceram sapos na casa de banho. Fora isso, o cansaço acabou por ser mais forte.

Acordámos cedo no dia seguinte e saímos para o pequeno-almoço – um pequeno-almoço simples, mas que demostrava que tinha sido preparado com todo o cuidado e hospitalidade.  Naquele momento, encontrámos um Sri Lanka totalmente diferente do que tínhamos visto na noite anterior. A família que nos acolheu era extremamente simpática, atenciosa e acolhedora – ao ponto de nos termos sentido idiotas por termos tido receio na noite anterior e acabarmos por decidir que íamos passar ali mais uma noite. Seguimos então para a rua principal, onde esperámos pelo autocarro público que e onde conhecemos um casal de holandeses que ia para o mesmo sítio que nós: a cidade antiga de Sigirya.

Sigirya foi em tempos a capital do reino. Erguida no topo de um rochedo de granito com mais de 370 metros, é hoje património mundial da UNESCO.  A fortaleza foi originalmente construída sob forma de um leão agachado, razão que lhe atribuiu o nome de Lion’s Rock. A entrada era feita pela boca do leão, mas hoje em dia restam apenas as patas gigantes do imponente leão. Depois de comprarmos o bilhete à entrada (30 USD), entrámos no complexo e demos ínicio à árdua subida até ao topo – e o que encontrarmos é nada mais nada menos que uma vista esplendorosa que parece não ter fim no horizonte. Além da vista, é possível vislumbrar a cidade que outrora existiu ali no topo, residência estratégica do rei Kashyapa. Do antigo complexo restam ainda vestígios dos seus jardins geométricos, fontes, piscinas e diversas ruínas. Mas não menos surpreendente é o sistema hidráulico, constituído por inúmeras cisternas e reservatórios, que se encontra praticamente intacto e ainda em funcionamento.

Depois de descer do topo do rochedo, foi tempo de nos sentarmos na “esplanada” do primeiro restaurante que encontrámos à beira da estrada e de provar a deliciosa comida cingalesa: noodles  e arroz frito com vegetais e os típicos rotis. De barriga cheia, seguimos de autocarro até ao próximo destino: as ruínas de Polonnarwua – uma cidade a cerca de 60km a norte de Dambulla, que também foi capital do Sri Lanka, após a destruição de Anuradhapura.

Já em Polonnarwua alugámos duas bicicletas para explorarmos os mais de 5km que compõem esta cidade antiga construida ao largo de um lago artificial e repleta de ruínas ancestrais, esculturas gigantescas e monumentos megalomanos que incluem antigos jardins, palácios e templos. O Gal Viharaya, um dos santuários com três estátuas gigantescas de Buda esculpidas na rocha em diferentes posições, é um dos exemplos mais conhecidos e impressionantes das esculturas que ali se podem encontrar. Já a noite tinha caído e foi hora de encontrar um tuk-tuk que nos levasse de regresso a Dambulla, onde acabamos por comprar comida num restaurante perto da guesthouse e comer por ali.

No terceiro dia, acordamos cedo para ir visitar a cidade de Dambulla e a sua principal atracção: o Cave Temple. Os nossos hosts serviram-nos um pequeno-almoço típico e insistiram que comêssemos como um verdadeiro cingalês: com as mãos – o que foi uma experiência no mínimo caricata, já que não é tarefa fácil comer noodles com um caril ao pequeno-almoço, ainda por cima com as mãos. Antes de sair,  ficámos à conversa no adorável jardim da casa com um outro hóspede que tinha entretanto chegado: um inglês já com uma certa idade que viajava sozinho pelo Sri Lanka. O dono da guesthouse fez ainda questão de nos levar até ao Cave Temple e nem sequer nos queria cobrar nada por isso, só depois de muito insistirmos é que aceitou.

Depois da entrada no Cave Temple, que é gratuita, há que subir uma longa escadaria que leva até às grutas no topo de uma colina. No interior das 5 grutas, repletas de pinturas no tecto, estão espalhadas cerca de 150 estatuetas budistas nas mais variadas posições e tamanhos – e mesmo para os menos crentes, é difícil explicar a energia mística que se sente no ar. Difícil de não reparar é também a enorme estátua dourada de Buda que se encontra logo à entrada do templo, em frente a uma estopa sagrada que simboliza 5 elementos: terra, água, fogo, vento e sabedoria. A par disso, as centenas de macacos que também por ali andam, em busca de comida ou de algo mais (no meu caso, foi por segundos que não fui roubada por um macaco que quando me apanhou distraída aproveitou para por a mão dentro da minha mala a ver se encontrava qualquer coisa). Na descida, visitamos o Templo Dourado de Dambulla (Golden Temple of Dambulla).

De regresso à guesthouse, fomos buscar as nossas malas e partir no autocarro com destino a Kandy, mas não antes sem nos despedirmos daquela que foi a nossa família durante os dias anteriores e que nos tratou como se fossemos parte dela.

A viagem entre Dambulla e Kandy foi longa e assim que chegámos, apanhámos um tuk-tuk que nos levou ao nosso hotel (Kandy Waters), onde fazemos o check-in e saímos ainda a tempo de visitar Kandy – uma cidade diferente e mais evoluída que os pontos do Sri Lanka por onde tínhamos passado. Esta cidade, localizada no centro do país, foi (também) em tempos a capital do Sri Lanka e é casa de um dos maiores e mais importantes monumentos históricos do país e da religião budista: o Templo do Dente Sagrado (Temple of the Sacred Tooth Relic ou Sri Dalada Maligawa, na língua local).

Construída em volta de um enorme lago e com colinas como pano de fundo, Kandy é uma cidade charmosa, que mistura vestígios de arquitectura ao estilo europeu – devido aos anos de dominação de portugueses, holandeses e britânicos -, com templos budistas. As suas movimentadas ruas de comércio atribuem-lhe um ritmo quase pulsante. Saímos do hotel a pé e  junto ao lago, passeamos pela ruas da cidade e visitámos o famoso templo, onde dezenas de pessoas se encontravam nos seus momentos de oração profunda, muitas delas quase em transe.

Ao longo do templo, é possível conhecer um pouco mais sobre a história do Sri Lanka. Curiosamente, nós portugueses também tivemos um papel activo na história deste país e do dente sagrado – que na realidade não pode ser visto, pois encontra-se guardado num cofre, tais não foram as inúmeras tentativas (muitas delas concretizadas) de roubo que este sofreu ao longo dos anos. Reza a história que o dente de Buda foi roubado no seu funeral e que, séculos depois, foi transportado para o então recatado Sri Lanka, escondido entre os cabelos de uma princesa. Foi primeiramente levado para Anuradhapura, mas depois de muitas peripécias, acabou em Kandy. Foi após a chegada dos portugueses ao Sri Lanka em 1505 e a tomada à força da costa oeste do país, que os portugueses que governavam Kandy, décadas mais tarde, levaram o dente para a Índia para o queimar, numa tentativa de acabar com o budismo na região, que acreditavam impedir a implantação do cristianismo. Mas, ao que parece, o dente que os portugueses levaram tratava-se de uma simples réplica e o verdadeiro encontrava-se escondido num local seguro. Ainda nos tempos que correm, diz-se que o dente está guardado num local seguro e não no cofre dourado a quem todos prestam devoção.

No dia seguinte, acordámos cedo, fizemos o check-out do hotel e fomos para a estação de comboio em busca de bilhetes que nos permitissem fazer aquela que é considerada uma das mais incríveis viagens de comboio do mundo entre Kandy e Ella. Lá conseguimos comprar bilhetes de primeira classe (leia-se lugar sentado) para o comboio que partia dali a pouco. Assim que se vê o comboio chegar à linha, a azafama começa. Centenas de pessoas entram e saem das carruagens do comboio, em busca de um lugar. No meio da confusão, acabamos por entrar numa carruagem da terceira classe, onde nem sequer lugar para nos sentarmos havia. Como nos esperava uma longa viagem de mais de 3 horas, acabámos por andar a saltar entre carruagens até encontrarmos uma onde nos conseguimos sentar. Apesar de não estarmos super confortáveis, conseguimos um lugar e tivemos a experiência de viajar juntamente dos locais – pais, mães, crianças e famílias inteiras, que partiam para mais um dia de trabalho ou de escola.

Algumas paragens depois de termos saído de Kandy, as carruagens começaram a ficar mais vazia e foi então que percebemos que tínhamos estado a viajar na carruagem errada – mais à frente, conseguimos encontrar lugares vazios na nossa carruagem. Esta viagem de comboio é definitivamente algo mágico e difícil de transpor: entre as centenas de quilómetros de linha férreas antigas, que passam entre pequenas povoações perdidas no mapa, campos verdes de plantações de chá, cascatas, é possível ver os seus habitantes a caminharem pelas linhas.

Saímos na estação Nanuoya, amais próxima de Nuwara Elyia, e apanhámos um carro privado até ao hotel onde íamos passar a noite. Nuwara Elyia é uma cidade colonial no centro do Sr Lanka, também conhecida por Little England, que foi em tempos um retiro colonial britânico e cuja arquitectura relembra uma típica cidade colonial inglesa. É também nesta região que se situam as maiores plantações de chá do Sri Lanka. Por se localizar no topo das montanhas, a cerca de 2.000 metros de altitude, a temperatura que se sente é bem mais fresca do que no resto do país.

Depois de deixarmos as malas no nosso pequeno cottage perdido no meio das montanhas (Sherwood Cottage), um dos donos ajudou-nos a traçar um itinerário para o resto do dia e arranjou-nos um motorista de tuk-tuk que nos levou até alguns dos pontos mais emblemáticos do Hill Country. Começámos por parar em alguns pontos com vista para as plantações, visitámos as cascatas Ramboda Falls e a fábrica e plantações de chá Blue Field Tea Factory. A produção de chá no Sri Lanka é de extrema importância para a economia do país e uma das mais importantes de todo o mundo. Durante a visita guiada à fábrica ficámos a conhecer melhor essa importância, a sua história, todo o processo de produção e colheita e os tipos de chá existentes. Os mais conhecidos são o chá preto e chá verde, mas ficamos também a conhecer o chá branco ou chá prateado, uma espécie de melhor qualidade. Aproveitamos ainda o final da tarde para vaguear pelas plantações, onde os últimos trabalhadores terminavam o seu dia, e deslumbrarmo-nos com o fantástico e singular pôr-do-sol que esta região tem para nos oferecer. Por fim, depois de uma volta pela região e acabámos a noite a jantar mais um prato típico antes de regressar para o nosso hotel no meio das colinas e plantações verdes.

O dia seguinte foi praticamente passado em viagem. Após algumas horas da manhã em Nuwara Elyia, e de termos perdidos os únicos transportes directos que nos iam levar ao sul do país, embarcámos numa aventura de cerca de 7 horas de viagem entre montes e vales, curvas e contra-curvas e cascatas à beira da estrada, em diferentes autocarros que nos levaram até Matara. Cansadas da viagem, negociámos um tuk-tuk até ao nosso hostel em Mirissa.

Chegadas ao hostel (Hangover Hostels Mirissa), o ambiente era completamente diferente e descontraído – o dono do hostel, holandês, deu-nos uma dicas do que fazer pela região. Nessa noite, jantámos num restaurante na praia que ficava mesmo do lado oposto ao nosso hostel. Um verdadeiro manjar dos deuses: camarões enormes acompanhados pela típica cerveja cingalesa Lion.

O último dia no Sri Lanka serviu para aproveitar para apanhar sol só com o oceano Índico no horizonte. Depois de conhecermos a Secret Beach em Mirissa – uma praia quase secreta e de díficil acesso por entre trilhos de densa vegetação, recomendação do dono do hostel  – acabámos por ficar numa das praias perto do hostel. Como perdemos praticamente um dia em viagem até às praias, acabamos por não ir passar o dia a Galle como tínhamos previsto e aproveitamos para apanhar uns últimos banhos de sol. O almoço, feito numa restaurante na praia, foi um prato enorme de peixe e marisco fresco.

Depois de umas peripécias durante a tarde, em Matara, apanhámos um autocarro (com ar condicionado e televisão e tudo) com destino a Colombo – a viagem foi bem mais rápida que todas as outras que já tínhamos feito, muito em parte pelas evoluídas infra-estruturas e auto-estradas que existem nesta região do país. Chegadas a Colombo, deu apenas tempo para um rápido passeio até à paragem do autocarro que nos ia levar até ao aeroporto, onde tínhamos voo na madrugada seguinte.

O Sri Lanka é um país surpreendente, não só pela sua beleza natural misturada com, mas também pela hospitalidade do seu povo. Foi uma visita curta a um país que merece, sem dúvida, ser explorado com mais atenção pois reúne as condições ideais para ser um destino de sonho: praias paradisíacas, paisagens de pasmar, boa comida e um povo incrível.