Sabores do Mundo

Esta crónica é sobre comida: Singapura, Malásia e Indónesia

Escrevo esta crónica sentada no Subway em Barcelona, onde faço uma escala antes de regressar a Portugal. Esta refeição rápida e tardia faz-me ter de imediato saudades do Sudoeste Asiático e da sua comida, já que pago 9,40€ por uma simples sandes e uma bebida​. Depois de ter passado os últimos 23 dias no Sudoeste Asiático, hoje venho falar-vos de comida. E de como (quase) me tornei vegetariana na minha passagem por Bali.

Mas comecemos pelo início. Singapura foi o meu primeiro destino e sendo um país multi-cultural é de esperar que esse misto de culturas se sinta também na cozinha. Considerada por muitos a capital gastronómica da Ásia, Singapura recebe influência culinária de países como a Malásia, China, Índia, Indonésia e Tailândia, culturas que por ali passaram e deixaram a sua marca visível nos sabores gastronómicos dos restaurantes da cidade.

Em Singapura encontrar local para comer não é problema. Na minha curta passagem por esta cidade, tentei experimentar diferentes paladares e da minha rota gastronómica fizeram parte um restaurante chinês, um restaurante indiano e alguma comida de rua. Em Chinatown, provei uns noodles acompanhados por um chá verde chinês. Em Little India, o coração indiano da cidade, deliciei-me com um Chicken Tikka Masala acompanhado por arroz Jasmine, pão naan e papadum com diversos molhos a apimentar o sabor. Ficou a faltar na lista de locais a visitar uma reconhecida banca de comida de rua, que foi distinguida recentemente com uma estrela Michelin – é a única banca com esta distinção e o prato que lhe atribui esta distinção (Hong Kong Soya Sauce Chicken Rice and Noodle) é o mais barato do guia (cerca de 1,30€).

Na Malásia, a cozinha reflete também influência e tradição culinária da variedade cultural e étnica dos seus habitantes. A grande maioria da população da Malásia pode ser dividida em 3 grandes grupos étnicos: malaios, chineses e indianos e esta variedade sente-se também nos sabores. Uma grande parte dos pratos típicos malaios tem por base o arroz (nasi) ou os noodles (mie), que é depois frequentemente acompanhado por vegetais frescos, frango ou peixe. Contudo, estes ingredientes podem variar consoante as tradições culturais que os influenciaram. Por exemplo, a comida chinesa contem frequentemente porco, mas noutros pratos malaios este alimento deve ser halal; é frequente encontrar pratos indianos que são vegetarianos, mas nunca com vaca. Ainda que assim seja, é extremamente fácil encontrar onde e o que comer na Malásia, sejam pratos com influência indiana ou chinesa ou bancas de rua ou restaurantes com anos de tradição. Entre Malacca, Kuala Lumpur e Penang, a Malásia foi onde mais comida de rua e de vendedores ambulantes experimentei. Em Malacca, o Jonker Street Night Market é um paraíso gastronómico, com diferentes snacks e pratos típicos a cada paragem. Em Kuala Lumpur, um temporal reteve-me dentro do centro comercial das Petronas Towers, onde acabei por comer uns noodles no food court. Mas foi em Petaling Street, a Chinatown de Kuala Lumpur e onde depois de anoitecer acontece um vibrante e colorido mercado nocturo, que acabei por comer numa banca com aspecto duvidoso, um arroz frito com vegetais e frango que apesar de não ser o melhor do mundo deu para matar a fome. Neste mercado, além de ser possível negociar verdadeiros achados, é também possível encontrar inúmeros locais onde experimentar a cozinha local, numa das muitas bancas por ali espalhadas que deixam uma mistura de aromas no ar à qual é difícil resistir. Em Georgetown, entre alguns pratos asiáticos como o Nasi Goreng, Wan Tan Mee ou Pad Thai (este último de influência tailandesa), um dos meus pratos preferidos preferidos foi uma espécie de caril de frango com um arroz amarelo e uma mistura de vegetais salteados.

Na Indonésia, os pratos típicos não fogem do combinado predilecto asiático: o arroz; mas a sua confecção varia bastante dependendo do local onde é feito ou o prato que acompanha. O arroz, vindo das suas imensas plantações, continua a ser um dos alimentos mais básicos mas também mais importantes do país, sendo não só a base da alimentação balinesa, mas também parte da cultura local. A minha primeira paragem foi em Yogyakarta na ilha de Java, mas apesar de ter experimentado comida muito boa nesta região, foi pela comida balinesa que me apaixonei. Mas foi na ilha de Java que provei pela primeira vez o mais raro e caro café do mundo – o Kopi Luwak. O principal motivo que leva a que este café seja tão caro é o seu processo de produção pouco comum, já que os grãos de café são digeridos por uma civeta (o luwak ou o gato-de-algália), um animal com um olfacto extremamente apurado, que por essa razão escolhe apenas os melhores frutos e grãos de café para se alimentar. Após a digestão, onde acontece um processo de fermentação natural que atribui ao café o seu sabor único, as fezes destes animais são examinadas para encontrar os grãos, que são depois lavados, secos e torrados para que possam ser consumidos e transformados em café. O Kopi Luwak é maioritariamente produzidos na Indonésia, nas ilhas Sulawesi, Sumatra, Java e Bali, ainda que outros países vizinhos também produzam cafés semelhantes. Experimentei o café produzido na ilha de Java – que tem um sabor mais forte – e na ilha de Bali – que tem um sabor menos forte – e ultrapassando a barreira mental do seu processo de produção, este é provavelmente o melhor café que já experimentei, especialmente o javanês que foi o café que gostei mais.

Voltando à comida… Em Bali, experimentei diversos pratos vegetarianos, confeccionados apenas com vegetais frescos e super saborosos, como um carril verde vegetariano, Nasi Goreng ou Mie Goreng vegetarianos. Além do arroz, os vegetais são também uma importante parte da comida tradicional balinesa e é raro o prato que não contenha vegetais confeccionados das mais diferentes formas e extremamente saborosos. Na última semana de viagem tentei variar um pouco e fugir dos típicos arroz e noodles fritos e experimentei outros pratos típicos balineses também muito bons como oChicken Satay (umas espetadas de frango com molho de amendoim), o Nasi Campur (arroz branco acompanhado por pequenas porções de diferentes deliciais locais, como o chicken satay, vegetais salteados, soto ayam – peixe marinado em folha de bananeira, pasta de caril vegetariano, fish pepes – uma sopa picante amarela de frango – e rempeyek – crackers de farinha de arroz com amendoim -; tudo servido novamente em folha de bananeira) ou o Ayam Sambal Matah (frango frito com molho balinês e acompanhado por arroz vermelho). O Sambal Matah, um molho típico balinês, confeccionado com chalotas, alho e chili frescos cortados finamente e um toque de óleo vegetal, sal e lima é a combinação perfeita para acompanhar diferentes pratos. Escusado também será dizer que praticamente todos os pratos que experimentei tinham um toque, mais ou menos agressivo, de picante, mas como estou habituada e gosto de um bom picante não foi problemático. Pelo menu gastrómico, passaram ainda pratos de peixe e marisco, não fosse Bali uma ilha no meio do Oceano Indício, e até um prato italiano. A comida balinesa é extremamente rica e saborosa, com sabores intensos e condimentados, e tenho muita pena de não ter conseguido fazer o curso de cozinha balinesa enquanto lá estava, mas fica para a próxima.

A fruta é também um dos alimentos mais saborosos e consumidos em qualquer um destes países. Neste campo, optei por não variar muito e comi apenas frutas mais tropicais e tradicionais como a banana, manga, melancia ou ananás, mas que tem outro sabor daquele lado mundo. Faltou-me coragem para provar o Durian – um fruto típico desta região conhecido pelo odor intenso que deita e pelo sabor forte que tem -, mas em vez disso experimentei um gelado artesanal com uma bola de gelado de durian e outra de chocolate negro indonésio. Entre o sabor a chocolate e o durian, lá consegui comer o gelado todo mas o sabor desta fruta é realmente bastante intenso e depois desta experiência não sei se arrisco no fruto fresco. Naturalmente, com tanto fruta fresca não podiam faltar também os sumos naturais e as águas de coco, ideais para matar a sede nos dias quentes do sudoeste asiático. E já que falamos em bebida, claro está que não podia deixar de provar a conhecida cerveja indonésia Bintang – uma lager leve e dourada que é a versão local da Heineken e uma herança da colonização holandesa na Indonésia, que é hoje a cerveja da Indonésia.

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