Diário de Bordo

Dia 18, 19, 20 e 21 | Amed e Sanur, entre águas cristalinas e vulcões

Saio de Ubud no Shuttle Bus – uma mini-van utilizada para transportar pessoas entre diferentes pontos de Bali – e depois das mais de 3 horas de viagem, chego finalmente a Amed.

O motorista não conhece o hotel, mas lá encontramos uma placa com o nome e já de mochila às costas entro por um caminho cheio de lama em busca do hotel Amed Sunset Beach. Lá o encontro e apesar de não ser um luxo, é mesmo literalmente em cima da praia por isso não me queixo. Deixo as minhas coisas no quarto e saio. A praia em si não é nada de especial, mas o mar, com o seu fundo vulcânico, é habitat de uma imensa vida marinha e o local ideal para amantes de mergulho e snorkeling.

A meio do passeio pela praia vem ter comigo 2 raparigas que me perguntam de onde sou, se falo inglês e me dão um cartão a explicar que estão a vender peças de artesanato que elas fizeram com conchas e sal de Amed para ajudar a pagar os seus estudos. Como não tinha dinheiro trocado, ficou a promessa de regressar no dia seguinte para comprar uma pulseira e um saco de sal a cada uma – o que infelizmente não aconteceu porque um temporal monumental debateu-se sobre Amed na tarde seguinte e não consegui voltar.

Amed é uma zona remota na costa este de Bali, composta por 7 pequenas vilas de pescadores ao longo de 14km  de costa e com o Mount Agung como paisagem de fundo. Esta é uma região que só há relativamente pouco tempo se começou a desenvolver e a tornar-se um destino turístico da ilha, o que é perceptível nas suas ruas e no ambiente que nelas se vive. A população local vive essencialmente da pesca, do sal e, mais recentemente, do turismo.

A minha passagem por Amed tem essencialmente um propósito. Há uns meses atrás decidi finalmente arriscar e experimentar algo que já há muito tempo gostava de experimentar: o mergulho. Tirei o curso de Open Water Diver, que me dá certificação para mergulhar em qualquer parte do mundo, e desde então tenho ido mergulhar todos os meses.

Amed é um dos pontos de eleição para o mergulho na Indonésia, recebendo mergulhadores de todo o mundo, e está claro o porque da minha vinda aqui. Depois de procurar entre as dezenas de escolas que aqui existem, acabo por marcar os meus 2 mergulhos para o dia seguinte na Amed Fun Divers. O dono chama-se Frank e é de Alicante. Estive para lhe perguntar o que o trouxe a Bali, mas acho que já sei a resposta. Mergulhos marcados passo por um super(mini)mercado fazer umas compras rápidas e regresso ao hotel, onde acabo por ver o por do sol e, mais tarde, por jantar mesmo em cima da praia. Huumm… Sim, consigo perceber perfeitamente o que fez um espanhol de Alicante mudar-se para Bali.

No dia seguinte, acordo cedo para ir tomar o pequeno-almoço antes de ir para a escola de mergulho, onde às 8:00 começa a preparação para os mergulhos daquele dia. O meu grupo de mergulho é super internacional: uma portuguesa (eu), um alemão (o meu buddy), dois franceses (um deles é o nosso dive master) e uma indonésia.

Com tudo preparado, briefing dado, saímos na carrinha em direcção a Tulamben, a vila seguinte onde vamos fazer a nossa saída de costa para o primeiro mergulho num local conhecido como The Wall – porque depois de entrar no mar e andar uns quantos metros existe literalmente uma parede, com uma queda dramática que vai até 60 metros de profundidade. Como eu e Lukas (o alemão) somos apenas mergulhadores Open Water, ficamo-nos pelos 18 metros mas mesmo assim conseguimos ver uma quantidade enorme de diferentes tipos de peixes, de todas as cores, tamanhos e feitios.

Entre mergulhos, almoçamos na praia e temos uma conversa filosófica sobre o sentido da vida, do trabalho e do tempo que passamos a trabalhar durante a vida e que perdemos sem tirar partido de coisas que nos preenchem. O segundo francês, que é uns bons anos mais velho que o resto do grupo, segue a filosofia de vida de que só tem que trabalhar para ter dinheiro para viajar, para conhecer o mundo, novas culturas, novas experiências e vivências. Por momentos ficamos todos em silêncio a pensar nas suas palavras e lá partimos partimos para o próximo mergulho no famoso USAT Liberty.

O Liberty é um navio americano da Segunda Guerra Mundial com 120 metros de comprimento que foi atingido por um torpedo japonês em 1942 e por ali ficou em águas indonésias. Mas devido à actividade vulcânica do Mount Agung, em 1963, o navio está agora encalhado entre 5 a 30 metros de profundidade, o que faz deste o mais popular destino de mergulho de Bali e um dos mais fáceis mergulhos de naufrágio de todo o mundo.

Assim que começamos a nadar é possível começar a ver o navio afundado, que ao inicio pode ser facilmente confundido, pelo desgaste que tem. Contudo, à medida que fomos nadando ao longo do navio, é possível perceber a sua beleza e imponência e a imensa vida marinha que nele habita. Existem ainda partes do navio onde é possível entrar, mas (mais uma vez) há dois Open Water no grupo e por isso ficamo-nos pelos 18 metros e entramos apenas na sala de cargo. Ainda assim, o solo vulcânico preto, a excelente visibilidade e as águas claras e quentes e extraordinária vida marinha ao redor do naufrágio faz com que este seja um excelente mergulho que durou mais de 60 minutos. Isso e o facto de ter sido o meu primeiro mergulho de naufrágio. 

Regresso ao hotel a meio da tarde para deixar as minhas coisas e volto a sair para conhecer melhor aquela zona e procurar transporte para o meu próximo destino, o que não se torna tarefa fácil já que toda a gente me diz que há muito poucos transportes a passar por Amed. Lá consegui encontrar um local onde me garantem que no dia seguinte às 11:30 passa um shuttle bus para Sanur.

Entretanto, como não há internet no hotel desde o dia em que cheguei e os dados do meu cartão SIM local acabaram, vou em busca de um local onde possa comprar mais dados. O que também não foi tarefa fácil, mas lá consegui. Tudo isto debaixo de chuva intensa, já que desde que tinha saído do hotel, não parou de chover. Tudo tratado para o dia seguinte, volto ao hotel para preparar a próxima viagem.

No dia seguinte, acordo cedo e aproveito que está bom tempo para fazer uma caminhada pela praia até à baia de Jemeluk, dar uns últimos mergulhos nas águas quentes de Amed e apanhar uns banhos de sol no seu escuro areal, antes de voltar ao hotel para ir buscar as minhas coisas e ir em busca do prometido shuttle. Que aparece à hora combinada! 

Ainda não tinha bem decido para onde ir depois de Sanur porque o meu plano original era visitar as ilhas Lembongan, Penida e Ceningan ou rumar para o sul da ilha, onde ficaria até ao final da minha estadia. Acabo por encontrar na Internet uma escola de mergulho que faz mergulhos em Lembongan com viagens desde Sanur. Depois de alguma conversação acabo por decidir onde vou passar os meus últimos dias na Indonésia: Nusa Lembongan, uma ilha a cerca de 30 minutos de barco de Bali.

Por causa da corrente, dizem-me que só posso mergulhar na quinta-feira, mas que têm que me ir buscar a Sanur na quarta e deixar-me de volta em Sanur ainda na quinta à tarde ou sexta de manhã. Aproveito a oportunidade e acabo por marcar a minha ida na quarta de manhã, os mergulhos para quinta e o regresso apenas na sexta de manhã, já que o meu voo é apenas ao final do dia e assim ainda consigo aproveitar os meus dias últimos pela ilha.  É a parte boa de viajar sem destino e sem nada marcado.

Chegada a Sanur, depois de umas 4 horas de viagem para fazer cerca de 80 km, é logo perceptível que se trata de uma zona muito mais desenvolvida que Amed. Deixo as minhas coisas no hotel Nesa Sanur Bali e saio para almoçar e conhecer um pouco da cidade. Como já passa das 14:00 é hora de começar a chover na Indonésia e como já passa da hora de almoço acabo por almoçar no primeiro restaurante que ainda aceita fazer almoços: o Le Bon Vivant Restaurant, onde como a minha primeira refeição ocidental das últimas 3 semanas, uma pasta divinal que me sabe pela vida.

Visito ainda alguns pontos turísticos de Sanur, incluindo o mercado tradicional que por ser época baixa está praticamente vazio e onde consigo negociar uns bons preços. “Cheap price for good luck” , como todas me diziam.

Acabo o dia a passear pela praia de Sanur, onde se vê os locais a chegar (provavelmente) depois de um dia de trabalho, miúdos de todas as idades a surfar e a aproveitar os últimos raios de sol que depois da tempestade decidiu aparecer para o último por do sol antes da partida para Lembongan.