Diário de Bordo

Dia 11, 12, 13 e 14 | Yogyakarta, a alma cultural de Java

Não, não é Jakarta, é mesmo Yogyakarta. Esta cidade, que se pronuncia Jogjakarta ou Jogja, é um dos principais pontos da ilha de Java, na Indonésia. Situada na mesma ilha da capital Jakarta, a mais populosa ilha da Indonésia, Yogyakarta é a capital cultural e artística da Indonésia. A principal razão que me levou a fazer uma paragem em Yogyakarta foi o templo de Borobudur, o maior templo budista do mundo, que fica muito perto da cidade.

Após a chegada ao aeroporto de Kuala Lumpur, vinda de Georgetown, apanho um Uber até ao the youniQ Hotel, onde vou passar a noite. O hotel fica relativamente perto do aeroporto, pois no dia seguinte voo às 9:40 para Yogyakarta. O meu voo, que sai atrasado de KL, aterra na ilha de Java por volta das 11:00 da manhã. Assim que saio do termina B do aeroporto sou bombardeada com taxistas que tentam levar os turistas até à cidade de Yogyakarta. Quando estava em Singapura fiquei a conhecer uma aplicação que é o Grab, uma espécie de Uber que opera no sudoeste asiático, e aproveito um código promocional para experimentar a aplicação.

A primeira coisa que faço é procurar uma ATM para levantar rúpias, a moeda local. No terminal A, compro um cartão SIM indonésio e troco os euros e ringgits malaios que me restam por rupias e apanho um táxi até ao hotel (não pago nada pela viagem por ser a primeira vez que uso o Grab, mas se tivesse pago seriam 57.800 IDR, perto de 4,10 euros). Isto depois de ter dito 1347 vezes “No, thank you” a todos os taxistas do aeroporto. Quando chego ao hotel Neo+ Awana Yogyakarta e vou a pagar, percebo que não tenho o meu cartão. Nesse preciso momento lembro-me PERFEITAMENTE de não o ter tirado da ATM. Nem o cartão nem o talão… Para ajudar, a recepcionista leva as mãos à cabeça em pânico. À pressa, vou deixar tudo no quarto e apanho um táxi novamente até ao aeroporto. Quando chego à ATM encontro o meu talão e peço ajuda ao segurança, que fala zero inglês e não percebe nada do que lhe estou a dizer. Lá chama uma rapariga e um rapaz, que lhe explicam que eu tinha perdido o cartão e queria saber se alguém o tinha por acaso entregue. Como diz que não entregaram ali nada, assumo que ou o cartão voltou para dentro da máquina ou alguém o levou, mas como é domingo não há ninguém do banco que me possa ajudar. Acabo por pedir para me cancelarem o cartão em Portugal e agradeço ter andado os últimos dias em Lisboa a tentar emitir um cartão de crédito com urgência.

Conformada com o meu azar (ou aselhice), saio novamente do hotel para visitar parte da cidade ainda naquela tarde. Passo pelo Water Palace, Palace of Yogyakarta e uns outros quantos monumentos, que deixo para visitar com mais detalhe nos dias seguintes e vou até à Jalan Maliaboro, umas das principais ruas de Yogyakarta, onde acabo por passar o resto da tarde.

No regresso para o hotel, já de noite e cheia de fome e cansada, paro numas bancas e pergunto se podem fazer comida para eu levar. Além de não perceberem o que eu digo, eu não consigo perceber os que são os pratos. Ainda digo “noodles, noodles, eat”, mas olham para mim com um ar confuso. Desisto e acabo por regressar ao hotel e pedir um prato típico no serviço de quartos – Nasi Goreng, um arroz frito com vegetais e outros ingredientes. No dia seguinte tinha que acordar às 2:45 da manhã, e por isso foi a melhor opção. O motorista de uma tour que marquei online vem buscar-me ao hotel às 3:15 para ir ver o nascer do sol no Borodubur Temple e depois seguir para Prambanan Temple, dois famosos templos de Java.

3:15, não há sinal do motorista. 3:30, nada. 3:45, começo a tentar ligar para um número de telemóvel da agência. Nada… Já perto das 4:00 lá aparece o motorista e depois de apanharmos mais uns quantos turistas pelo caminho, chegamos ao hotel Manohara, o ponto de entrada para o templo. Há entrada dizem para nos apressarmos para não perdermos o nascer do sol. Ao longe, e ainda de noite, já se começa a ver aquele que é o o maior monumento budista do mundo, que se julga ter sido construído nos séculos VIII e IX e que esteve perdido no meio da selva de Java central durante anos e foi apenas re-descoberto em 1814 pelos ingleses.

À chegada ao cimo do composto, a noite começa a desaparecer e o dia a nascer, mas por causa das nuvens o sol nasce meio escondido. Ainda assim, é possível ver o céu alaranjado e esta é uma experiência para recordar. O templo por si só, é incrível. Formado a partir de uma base piramidal com 123 metros de cada lado, ergue-se em 5 terraços quadrados com estrutura com 3 níveis em forma de cone no topo e repleta de estupas. Ao fundo, é possível ver. E a toda a nossa volta, uma imensidão verde que torna a experiência ainda mais mística.

Passadas umas horas e já de volta à mini-van, sigo caminho para o outro templo: Prambanan. À chegada, um grupo de raparigas vem ter comigo e pergunta-me se quero um guia, ao qual respondo que não, mas elas explicam-me são estudantes e que serão elas as guias. Aceito a proposta e seguimos as 5 para visitar o templo. Pelo caminho, além de me explicarem detalhes sobre o composto Prambanan (tem 4 templos: Prambanan – que ele próprio é composto por mais de 200 templos -, Sewu Temple, Bubrah Temple e Lumbung Temple), explicam-me que são estudantes de inglês da ilha de Sumatra e que estão ali para praticar. São miúdas super simpáticas e vamos conversando imenso pelo caminho, ensinam-me palavras em indonésio e eu ensino-lhes como se dizem em português. Falamos sobre a Indonésia e sobre Portugal, mostro-lhes no mapa onde fica Portugal (“oh… so far away!”) e esta experiência acaba de entrar para o meu top!

Se existe maneira de ficar a conhecer melhor um país é interagir com a sua cultura e com o seu povo e estas 2 horas passadas à conversa com estas raparigas, que desejam um dia ir a Portugal visitar-me, é sem dúvida uma das melhores experiências que já vivi em viagem. No final, pedem-me para tirar uma fotografia comigo, em grupo e individualmente, e ficam todas contentes quando lhes digo que também quero tirar as fotografias com a minha máquina. Na despedida, a pedido de uma delas, dou-lhes o meu e-mail, sob promessa de que me escrevem e que um dia, se for a Sumatra, as vou visitar.

Antes de regressar ao hotel, faço um desvio para um almoço tardio num restaurante à beira da estrada, onde almoço um prato típico indonésio. O dia, que começou cedo, acaba cedo  também para que possa descansar antes de continuar à descoberta de Yogyakarta durante o dia seguinte.

Na manhã seguinte, saio com o objectivo de visitar o Water Palace e o Palácio do Sultão. Pelo caminho, passo por uma praça enorme e totalmente descampada com apenas 2 árvores enormes no centro e enquanto tiro umas fotografias vem um senhor ter comigo e explica-me que, segundo reza a lenda, quem conseguir passar entre estas 2 árvores de olhos vendados, vê os seus desejos concretizados e pergunta-me se quero experimentar. Como tinha estado a chover na noite anterior, o centro estava cheio de água e prefiro não arriscar. Ele diz-me que já lá passou muitas e vezes e que ainda estava à espera que os desejos se concretizassem, por isso fico conformada com a minha decisão. Acabamos por ficar mais um pouco à conversa e ele dá-me ainda umas dicas do que posso visitar em Jogja.

Sigo caminho e sou mais uma vez abordada por outra pessoa. Desta vez, o Bejoo, que é guia turístico, pergunta-me se tenho planos para aquele dia e dá-me também uns conselhos do que fazer e disponibiliza-se para me fazer uma visita guiada pela cidade na sua mota e ainda para ir experimentar o café típico de Java, o Kopi Luwak. Agradeço, mas digo que já tenho planos e que prefiro ir passeando pé, dá-me o número dele e diz que fica à espera que lhe ligue durante a tarde para me levar ao tal local para experimentar o tal café.

Sigo para o meu primeiro destino: o Water Palace (Taman Sari), um antigo palácio de descanso do sultão e da sua família, que foi construído por um arquiteto português. Dentro do palácio sou abordada por um grupo de jovens que me perguntam se me podem fazer uma entrevista para o trabalho final de curso deles. Quando pergunto o que é que estudam, explicam-me que estão a estudar inglês e que o projecto deles consiste em fazer um vídeo, que prometem enviar-me no final, onde aparecem a praticar inglês. “De onde és?”, “Estás a gostar de Yogyakarta?”, “O que é que te fez vir aqui?”, “Quais as principais diferenças entre o teu país e o nosso?”, “A que países é que já foste?” (ficam de boca aberta e super entusiasmados quando lhes digo que já vivi em África e na Europa e por isso já conheço uns quantos países), e por ai fora. Terminado o interrogatório, que foi todo filmado, pedem-me ainda para tirar uma fotografia e agradecem-me imenso a ajuda. Desejo-lhes boa sorte para o projecto e continuo a minha visita.


À saída do palácio oiço “Catarina, Catarina…”. Era o Bejoo, que passa de mota por mim, me diz adeus e que fica à espera que lhe ligue. A caminho do Palácio do Sultão e entre dezenas de “olá”, “de onde vens?”, “estás a gostar de Yogyakarta?”, um senhor pergunta-me para onde vou. “Palácio do Sultão”, respondo. Ao qual ele me diz que está fechado e que ele próprio trabalha no palácio e está a ir para casa na pausa de almoço, onde a mulher tem preparado o almoço. Aconselha-me a ir visitar a Batik School, uma escola de arte, onde posso ver os verdadeiros batiks – e não os que são conhecidos como Coca-Cola Batik, que perdem a cor quando são lavados – e aprender como se fazem. Aceito a sugestão e ele ainda me chama um becak (uma espécie de bicicleta taxi, com um lugar à frente e onde o motorista é que pedala) e negoceia o preço para me levar até ao local. Já na escola, faço uma tour pelo local onde me explicam mais sobre a técnica, sobre a própria escola (faz parte da universidade de Artes aqui de Yogya, que como fica fora da cidade, acabaram por construir aquela escola ali para que os alunos pudessem expor as suas obras e dar a conhecer esta arte a quem está na cidade) e onde acabo também por comprar um batik de recordação.

Como é hora de almoço, vou almoçar a um restaurante que encontro pelo caminho, antes de voltar para ir visitar o Palácio do Sultão. Depois de almoço, tenho direito a uma massagem com uns óleos e tudo, feita por uma rapariga que é enfermeira e que vai andado pelos estabelecimentos a dar massagens às pessoas e a vender os seus produtos. Acabo por lhe comprar os tais óleos, que além de cheirarem super bem, têm um efeito super relaxante.

Quando saio do restaurante uma nuvem completamente cinzenta apodera-se da cidade e antes que comece a chover a potes apreço-me para chegar ao meu destino, mas não vou a tempo e acabo por ter que me abrigar até que a chuva abrande. Meia hora depois, chego finalmente ao Palácio do Sultão e não é que… está fechado durante a tarde. Genial… São 15:30. Volta a chover torrencialmente e abrigo-me, enquanto penso o que fazer. Não há transportes por ali e como já estou molhada, continuo caminho a pé de regresso ao hotel. A meio do caminho, um senhor que ia na mesma direcção que eu, pergunta-me de onde sou e para onde vou (as perguntas habituais). Quando lhe digo que sou de Portugal, diz “Oh… Lisboa!” (é a primeira pessoa que reage de forma diferente e não diz “Ahhh, Cristiano Ronaldo”.) Pergunta-me qauis são os meus planos e se já experimentai o Kopi Luwak e quando lhe digo que não, oferece-se para me levar debaixo do seu guarda-chuva até ao café de um amigo para que eu possa experimentar o tão conhecido café. Vamos a conversar pelo caminho, numa conversa muito culta e intelectual e consigo facilmente perceber que é um homem super culto e instruído. sabia imenso sobre Portugal, sobre a colonização portuguesa em Timor-Leste. Pelo caminho, vai-me falando também sobre a Indonésia e a sua história.

Chegados ao local, fico a conhecer os donos, que são também produtores, e aceito experimentar o café. Já tinha ouvido falar sobre ele, mas tinha ideia que era típico da ilha de Bali e não de Java. A dona, senta-se comigo à mesa e explica-me que também existe em Bali e em outras ilhas da Indonésia, mas o café aqui produzido tem um sabor mais forte. Explica-me também como é todo o processo de produção do café que (não se assustem) é produzido através de grãos de café extraídos das fezes de um animal que é a civeta, que selecciona os grãos antes de ingerir e cuja semente passa pelo sistema digestivo do animal, que lhe atribui a diferença no sabor. E sim, o café é mesmo (mesmo mesmo mesmo) muito bom! Experimento também o Kopi Luwak de Bali, que tem um sabor mais fraco que o de Java. Este é o café mais caro do mundo, já que a sua produção é limitada e o café extremamente raro. Como tinham a tal civeta à porta perguntam-me se lhe quero tocar e, depois de me assegurarem que não é agressiva, lá lhe faço umas festas e ainda a colocam às minhas costas. Aproveito para comprar um saco de grãos de café para levar, que me custa mais que uma noite no hotel, mas que vale definitivamente a pena. Antes de me ir embora, escrevo ainda uma mensagem num dos muitos livros que eles tem no café, especialmente para pessoas que como eu, por ali passaram.

Entretanto, quando me pergunta como é que cheguei ali e conto a história, fico a perceber que o senhor que me acompanhou trabalha para o sultão (o que explica muito coisa) e que é um amigo da família. Como está a chover imenso, o dono diz que me levar ao hotel na sua mota, oferta que aceito sem pensar duas vezes. Despeço-me com mil obrigadas aos donos e ao meu companheiro de caminhada e regresso ao meu quarto de hotel para preparar as minhas coisas para partir para o próximo destino. Na manhã seguinte apanho um taxi às 5:30 rumo ao aeroporto de Yogyakarta, onde tenho voo rumo ao tão esperado destino final da minha viagem: Bali.

Devo confessar que quando aterrei em Yogyakarta não fiquei impressionada, mas depois destes dias por aqui, a minha opinião mudou por completo. Yogya é um dos principais centros da cultura tradicional javanesa e isso sente-se nas ruas, o ambiente descontraído e acolhedor, as pessoas extremamente simpáticas e atenciosas (como devem ter percebido, estão constantemente a meter conversa, mas sem maldade nenhuma, às vezes apenas para desejar um bom dia) e uma boa onda indonésia que não estava à espera.