Diário de Bordo

Dia 4, 5 e 6 | Melaka, à procura das origens portuguesas

Depois do que foi sair do hotel em Singapura, consigo chegar antes da hora à paragem de autocarro (porque apanhei um Uber, vá… as viagens aqui são extremamentemente baratas. Esta custou S$ 7,35, cerca de 1,60€). Tinha comprado o bilhete online no Bus Online Ticket (S$18) com destino a Melaka e por isso foi só chegar, encontrar o autocarro e dar inicio à viagem. Adeus Singapura, até à próxima. 

A viagem para Melaka (Malacca ou Malaca) demora cerca de 4:30, num autocarro bastante confortável e com ar condicionado, que faz paragens na alfândega à saída de Singapura, entrada na Malásia e numa espécie de estação de serviço, que só tem casas de banho e bancas com comida.

Chego à estação Melaka Sentral, que fica a uns quilómetros da cidade, e compro um cartão SIM de uma operadora da Malásia para que possa ter internet nos próximos dias. Pago aproximadamente 2€ e com uma promoção de fazer inveja a qualquer operadora em Portugal consigo ter 3 GB durante uma semana. Apanho novamente um Uber (sim, começa a ser um vício) para o Hotel Arissa, onde tinha uma noite marcada.

Saio do hotel ao final da tarde e vou em direcção ao centro histórico da cidade e pelo caminho passo pela movimentada Jonker Street (a Chinatown de Melaka), onde está a acontecer o Jonker Street Night Market. Esta é uma zona conhecida mundialmente entre os colecionadores à séria como um dos melhores lugares para negociar antiguidades. Aos fins-de-semana, durante a noite, a rua fecha ao trânsito e fica repleta pequenas barraquinhas que vendem de tudo. Aproveito para ir comendo qualquer coisa pelo caminho. Começo por beber um sumo fresco de cana de açúcar, depois por comer uns fried dumplings e acabo com uns noodles. Acabo a noite a visitar a Town Square, que se encontra repleta de pessoas, antes de voltar par ao hotel.

Melaka convenceu-me desde a primeira noite e por isso acabo por pedir uma extensão da minha estadia no hotel, ficando assim um total de 2 noites. A estadia ficou em cerca de 55 euros e desta vez tenho um quarto à séria só para mim, com tudo a que tenho direito – cama, lençois, casa de banho, ar condicionado… um luxo por estes lados.

O dia seguinte é passado a explorar a Melaka a pé. Volto à zona história, onde fica a St. Paul’s Church, o Stadthuys (também conhecida por Red Square – uma estrutura situada no coração de Melaka) e a mais antiga igreja protestante na Malásia, a Chirst ChurchMelaka foi colonizada por diferentes povos ao longo dos anos: primeiro os portugueses (a principal razão que me trouxe aqui), depois os holandeses e por fim os ingleses e são visíveis os vestígios deixados. Visito ainda o Maritime Museum, uma réplica do galeão português Flor del Mar com uns impressionantes mais de 30 metros de altura e comprimento. Este navio-museu conta a história de Melaka desde a sua colonização até a sua independência e exibe antigos artefactos e documentos históricos. São inúmeros os vestígios portugueses que encontro, incluindo a bandeira de Portugal e a estátua de Afonso de Albuquerque, líder da frota portuguesa que aqui chegou em 1511.

Depois de almoço, passo pela A Famosa – a fortaleza portuguesa que foi mandada construir por Afonso de Albuquerque. A Porta de Santiago é o que resta desta fortaleza, um dos mais antigos vestígios de arquitectura europeia no sudoeste asiático. No topo da colina encontra-se uma igreja, também ela com história portuguesa. A estrutura original era uma simples capela que foi construída em 1512 em honra de Nossa Senhora da Anunciada por um fidalgo portugues – Duarte Coelho -, que mais tarde foi aumentada e renomeada Igreja de Madre Deus. Depois da ocupação dos holandeses em 1641, a igreja foi então batizada de St. Paul’s Church e ainda teve mão dos ingleses, que a tentaram destruir.

O resto da tarde foi passado em busca de vestígios de uma Melaka portuguesa, numa zona da cidade onde se vive um pouco de Portugal. O Portuguese Setlement fica situado fora da cidade, a cerca de 4KM e à medida que vou-me andado começo a notar a diferença no ambiente à minha volta. Passo por um caminho de terra batida e por uma ponte de madeira e começo a ponderar se fiz a escolha certa em ir em busca de origens portugueses deste lado do mundo. Mas como dizem que somos um povo valente e imortal, continuo a caminhada e começo a reparar no nome das ruas: Jalan (rua em malaio) Teixeira, jalan Squera e nas vivendas com apelidos portugueses à entrada. Penso para mim que isso só pode significar que estou no sítio certo.

A placa a dizer “Welcome to Portuguese Setlement” confirma que estou em “casa”. Assim como o restaurante Monteiros, o restaurante de Mellos e o restaurante Lisboa. Neste último, pergunto se há alguém que fale português, mas infelizmente a senhora que se encontra no restaurante diz que não, mas que muito perto (3 ruas a cima, à direita) existe um mini-mercado cujo dono, George Alcantra, fala o “português antigo”.

Às vezes é preciso estarmos longe para percebermos o orgulho que temos no nosso país. E este foi precisamente um desses momentos.

Ando um pouco e fico na dúvida qual será a terceira rua em que devia ter virado. Encontro um hotel, explico que venho de Portugal e pergunto na recepção se me sabem onde é o mini-mercado. Um dos empregados diz-me que também é português, mas não sabe da existência de tal mercado. Ninguém sabe, conhece ou ouvi falar de tal local. Agradeço e meio desiludida começo o caminho de volta para a cidade. Mas não me conformo que fiz aquela caminha para nada e procuro no Google alguma indicação que me ajude a encontrar o local. Encontro apenas uma notícia sobre o bairro português de Melaka que faz menção a uma Jalan Day. Vale a pena tentar.

Depois de muito procurar, encontro finalmente o mini-mercado e pergunto à porta quem fala português. Com um sorriso na cara, o simpático senhor Alcantra apresenta-se na língua de Camões. Falamos um pouco, sempre em português, e ele pede-me que tire um caderno das costas da sua cadeira. É um pequeno caderno repleto de mensagens deixadas por portugueses que, tal como eu, foram em busca deste português no meio de Melaka.

Enquanto escrevo no caderno, oiço o senhor Alcantra cantar ‘vinho verde, vinho verde…’. Segue-se o Malhão e outras músicas portuguesas. Depois de mais uns dedos de conversa, em que me diz que nesta zona de Melaka ainda festeja o S. Pedro e o Natal e que, apesar da comunidade ser pequena, tentam manter as tradições e cultura portuguesa. Despeço-me do Sr. Alcantra que me pede dois beijinhos (maroto…). “Até à próxima e bom natal” são as palavras do Sr. Alcantra, enquanto me vou embora, com um sorriso na cara e um orgulho enorme. 

Escrevo esta crónica na caminhada de regresso ao hotel, onde me preparo para partir amanhã bem cedo para Kuala Lumpur, com Portugal no coração.

Se algum dia visitarem Melaka, não deixem de procurar pelo Sr. Alcantara. Garanto-vos que vale a pena. Esperemos que viva muitos mais anos e que o pequeno caderno se vá enchendo de saudade, escrita como deve ser: em bom português.